SABRINA SIQUEIRA
Jornalista e podcaster do Literatura Oral
Como explicar que um presidente cujas ações negligentes parecendo um genocídio, além dos repetidos discursos de ódio, com características misóginas, homofóbicas, racistas e belicosas, se mantenha no cargo?
Discursos nas redes sociais, panelaço e manifestações virtuais não têm surtido efeito.
Quando parece que não há nada que possamos fazer, ainda resta uma ação: o boicote.
Para entender, vale a dica de “Garganta Profunda”, a fonte dos repórteres do Washington Post na cobertura do caso Watergate: “sigam o dinheiro”.
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O conselho levou os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein a descortinar os fatos envolvendo um escândalo de corrupção na política norte-americana, em 1974.
O que foi publicado por eles resultou na renúncia do então presidente dos EUA, Richard Nixon, do Partido Republicano.
Nada mal, não? Certamente, o caminho que segue o dinheiro revela a rota para os cargos mais altos da política nacional.
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Muitos de nós, pessoas assustadas com o rumo que a falta de gestão federal durante a pandemia tomou, têm se perguntado como é possível que um funcionário público – ocupando o cargo temporário de presidente da República – de tamanha ineficiência e por vezes descarada perversidade contra seus contratantes, o povo brasileiro, ainda não tenha sido deposto, “impeachmado”, convidado a se retirar por seus pares, recebido a sugestão de renunciar.
Nadinha. Segue inabalável rumo uma reeleição em 2022.
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Isso significa, no mínimo, que continua agradando a quem o financia desde a campanha eleitoral.
Pois eu proponho uma ação que parece diminuta, mas que praticada por grupos pode atingir grandes proporções e fazer secar as fontes que se beneficiam com a continuidade do mandato do referido político: o boicote.
Boicotar empresas, marcas e prestadores de serviços que financiam ou ganham com a permanência do presidente que debocha das famílias vitimadas pela pandemia, ou reforçam o discurso negacionista, por exemplo, insistindo em tratamento preventivo para Covid, apesar da falta de comprovação científica e do alerta de especialistas de que esse tratamento pode agravar os casos dos contaminados com o vírus.
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O termo boicote tem origem no sobrenome de um capitão irlandês, Charles Boycott. Em 1880, ele era agente de terra de um senhorio e teria expulso onze inquilinos de terra que não conseguiram honrar com o aluguel devido a um ano de colheitas ruins.
Como resposta a essa falta de misericórdia com os próprios conterrâneos, a comunidade do interior do Condado de Mayo passou a evitar Charles Boycott, como forma de pregar-lhe uma lição.
Seus funcionários pararam de trabalhar no campo e nos estábulos, de limpar e cozinhar em sua casa, e o carteiro local parou de levar sua correspondência.
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A partir dessa tática empreendida na Irlanda, surge na Língua Inglesa o termo “boicote”.
Como ação coletiva, o boicote pode surtir algum efeito. Para tanto, o consumo deve ser consciente quanto à escolha dos produtos e nas pequenas atitudes do dia a dia.
Deixemos de comprar nas empresas que financiam os políticos que nos desagradam, de optar pelas marcas que cultivam sua matéria prima em áreas de preservação ambiental e de consultar com médicos que insistem no kit de prevenção à Covid (que vai ao encontro da ideologia do governo federal).
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Diminuindo a receita desses empresários/ prestadores de serviços, poderá sobrar menos para injetar em campanhas presidenciais.
Afinal, se o presidente é um fantoche a serviço de empresários, os fios que o manipulam são feitos do dinheiro dos clientes e consumidores.
Talvez possamos impactar o mercado e começar a mudar o mundo, alterando nossos hábitos de consumo.
E quando eu sugiro que façamos boicote a esses profissionais e empresas que ainda apoiam o presidente, por favor não entendam como uma atitude de represália pela diferença de opinião política.
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Mas como um ato de bondade. Porque a partir disso empresários poderão finalmente entender que, a longo prazo, mais importante que os lucros está a vida dos clientes.
E alguns médicos terão a oportunidade de se aprofundar nas pesquisas sobre a eficácia do tratamento precoce, que não é consenso entre cientistas.
Com menos circulação de clientes em seus estabelecimentos e com menos pacientes nos consultórios, esses indivíduos terão mais tempo para refletir e poderão sentir-se convidados a uma visada de ética e empatia quanto à coletividade que somos enquanto humanidade.