Paralelo 29

FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O eterno retorno do fascismo (IV)

FABRÍCIO SILVEIRA

Jornalista e professor universitário

O nome do semioticista italiano Umberto Eco (1932-2016) voltou recentemente à tona com a reedição de um texto escrito em 1995, por ocasião de uma conferência proferida na Universidade de Columbia (EUA).

“O fascismo eterno” – esse é o título daquela comunicação – foi traduzido para diversos idiomas e acabou incluído no livro Cinco Escritos Morais, lançado no Brasil em 1998, pela editora Record.

Além de celebrar o legado de um dos mais destacados intelectuais dos últimos 50 anos, a nova edição de O Fascismo Eterno (Record, 2018) – uma bonita edição de bolso – é também sintomática de um conjunto de preocupações sócio-políticas então emergentes em nosso atual debate público.

FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O avesso do bom senso

E o que nos diz Umberto Eco? Num primeiro momento, expõe suas lembranças pessoais como jovem fascista italiano, com cerca de 11 anos de idade, cooptado pela retórica inflamada – o “virtuosismo retórico” – de Mussolini, no interior da Itália, na primeira metade da década de 1940.

A partir daí, o que se segue são relatos breves sobre o fim da Segunda Guerra, sobre a vitória da Resistência e sobre os sentidos da palavra “libertação”.

O autor descreve o contato que teve com os primeiros soldados norte-americanos.

“O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às delícias de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé” (p. 11).

FABRÍCIO SILVEIRA – OPINIÃO: O eterno retorno do fascismo (III)

Aos poucos, o que era uma digressão pessoal, feita ao sabor da memória, se converte numa das mais lúcidas e fluentes reflexões de que hoje dispomos sobre a natureza do fascismo.

Eco emprega a expressão “UrFascismo” para se referir a um fenômeno político e ideológico tão persistente quanto difícil de definir em termos brutos, com invariável objetividade.

O fascismo é sempre um fascismo fuzzy, ele diz.

FABRICIO SILVEIRA – Opinião: O eterno retorno do fascismo (II)

Ou seja: não é “uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, um alveário de contradições” (p. 32).

Uma “nebulosa de instintos obscuros e pulsões insondáveis” (p. 23), Eco reconhece.

Alguma coisa, no entanto, se pode depreender como parte dessa colcha de retalhos. Os fragmentos desse mosaico – essa mistura de afetos, disposições psíquicas e ideais políticos –, segundo o autor italiano, seriam:

FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O eterno retorno do fascismo (I)

1. O culto da tradição

2. A recusa da modernidade

3. A ação pela ação – a suposição de que um homem de ação é mais valoroso, por princípio, do que um sujeito culto e intelectualizado

4. O desacordo como traição

5. O medo da diferença (o racismo implícito e/ou explícito)

6. O apelo às classes médias frustradas

7. A obsessão com toda forma de conspirações

8. A ideia do adversário, ao mesmo tempo, como forte demais e fraco demais

9. A ideia de que o pacifismo é um conluio com o inimigo

10. O desprezo pelos fracos (o repúdio às minorias)

11. A educação para o heroísmo

FABRICIO SILVEIRA – Opinião: Tolos, fraudes e militantes

12. O machismo

13. O populismo qualitativo

14. A “novilíngua” (o emprego de uma linguagem própria, cifrada, com inversões estratégicas de sentido).

O fascismo eterno, portanto, seria capaz de recombinar e recolocar permanentemente esses ingredientes.

Jornalista, roqueiro e escritor de Santa Maria estreia no Paralelo

Seria capaz de alterar-lhes a ênfase, encobri-los e repotencializá-los, conforme as necessidades de sobrevivência e enfrentamento do jogo político, de acordo com a distração dos adversários, o senso e o clamor das oportunidades.

Para Umberto Eco, é assim que o fascismo se enraíza entre nós, mesmo em trajes civis. Uma democracia plena e pulsante é aquela que melhor aprende a se manter em vigília.

Compartilhe esta postagem

Facebook
WhatsApp
Telegram
Twitter
LinkedIn