Paralelo 29

JULIO PUJOL: CPI, e agora?

JULIO PUJOL

Professor de História e consultor político

O escopo deste artigo não é fazer uma avaliação minuciosa das entranhas da CPI da Covid e do comportamento dos seus personagens.

 Pretendo fazer uma breve reflexão sobre os aspectos e os impactos mais amplos da instalação da CPI num momento que é um ponto de inflexão, uma encruzilhada, na história recente do nosso país.

Quatrocentos mil brasileiros mortos merecem uma CPI. E esse é o primeiro ponto de análise.

A CPI precisa responder se esse número de mortos era inevitável ou se de alguma forma negligenciamos os cuidados e os tratamentos adequados. Em caso positivo deve indicar quem negligenciou.

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Essa CPI não é uma articulação da oposição, nem do Centrão, nem de A, nem de B.

É um direito da sociedade de saber como as coisas estão sendo conduzidas nos altos escalões da República. É prerrogativa de um Estado Democrático.

Neste ponto, nenhum reparo.Tendo esse escopo, e nessa conjuntura, a sociedade estará observando.

Sendo o Congresso – e o Senado – uma casa política, são inevitáveis o componente político e as consequências políticas dos resultados da Comissão Parlamentar de Inquérito.

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Porém, é necessário ter um cuidado com a politização ou partidarização dos métodos e da condução da investigação.

Garantido esse cuidado, os resultados falarão por si. E a sociedade os absorverá.

E parece que isso está a ocorrer nestes primeiros dias e primeiros movimentos.

O governo central, se sentido acuado, de alguma forma sinaliza que nem tudo está claro. 

Então é preciso que se conheça a verdade para que a verdade possa libertar, como tanto se fala nos últimos tempos.

Pandemia de Covid-19 já matou mais de 400 mil brasileiros/Foto: Alex Pazuello, prefeitura de Manaus, Divulgação

 Fazendo isso a CPI terá cumprido o seu papel.

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O segundo ponto é refletir sobre que impactos podem causar os resultados da CPI no processo eleitoral. É uma incógnita.

Mas podemos afirmar que, seguramente, todos os atores do processo, sejam partidos, pré-candidatos, lideranças, estão observando atentamente os atuais movimentos, e tenderão a balizar suas ações e posicionamentos levando em conta a CPI e seus resultados.

Existem ao menos dois macrocenários que podem resultar da CPI e que podem ter desdobramentos completamente diferentes.

Se a CPI concluir que o governo federal foi negligente, ou até colaborou para o descontrole da pandemia e para o aumento de óbitos, pode indicar uma penalização ou mesmo pode indicar a abertura de um processo de impeachment se essa responsabilização chegar à figura do presidente da República.

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No cenário dois, a CPI pode concluir que não houve essa responsabilização, que o governo fez tudo o que era possível diante das circunstâncias e condições concretas dadas.

Cada um desses resultados afetará o processo político de um modo particular. No cenário um, poderemos ter o impeachment do presidente.

Ou, ao menos, um profundo desgaste da figura presidencial, o que o enfraquecerá enormemente para 2022.

No cenário dois, o atual presidente sairá fortalecido e será, ao natural, um candidato de peso em 2022.

Uma observação final: dificilmente a CPI, diante de mais de quatrocentos mil brasileiros mortos dará essa “carta branca” ao governo e particularmente, ao presidente.

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Lembrando que a sociedade está sofrendo os impactos da pandemia e também observando os trabalhos e resultados da CPI.

Por outro lado, é difícil crer que “todo” o brasileiro está acompanhando passo a passo os movimentos e resultados da CPI.

Portanto, temos que mensurar também o quanto uma CPI pode balizar o seu comportamento político.

Quero dizer, mesmo que a CPI desse a “carta branca”, provavelmente a sociedade não daria. E os senadores sabem disso.

CPI poderá levar à responsabilização de Jair Bolsonaro e até mesmo um pedido de impeachment do presidente da República/Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom, Agência Brasil

Penso que fundamental no desdobramento político será o movimento das ruas. A cada momento, a cada revelação, a cada informação nova, as ruas deverão falar.

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E dependendo de como elas falarão, a balança política penderá para um determinado lado.

É preciso lembrar que estando em distanciamento social e as ruas ainda estão tímidas. Mas uma outra realidade tenderá a se impor.

O Brasil está diante de si mesmo. Seremos testados no próximo período sobre o quanto amadurecemos enquanto sociedade e também politicamente.

Me parece que não sairemos os mesmos deste processo, considerando o todo, a Nação.

As lideranças políticas, de todos os espectros, precisam agir com muita responsabilidade. É um momento difícil, complexo e delicado da Nação.

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