JOÃO EICHBAUM
Advogado e escritor
Os tripulantes de trem estavam impedidos de exibir para o público suas artes com a bola, pelo singular motivo de não terem paradeiro duradouro em casa. Mas o maquinista podia se dar o luxo de dispensar o estrelismo do futebol, porque se tornava uma estrela por si mesmo.
Os alunos da segunda série do Grupo Escolar João Belém tinham pela dona Olga Karpilowsky um respeito que muito se aproximava do temor.
Ela não mostrava os dentes, e mantinha a turma debaixo de uma disciplina de quartel.
EICHBAUM: O sonho dos meninos (II)
Certa manhã, ela apareceu com seu filho, um menino loiro, de olhos claros, que nem caminhava ainda.
Mas, para mostrar que ele sabia falar, dona Olga, que o mantinha no colo, lhe perguntou: “o que você quer ser, quando crescer”? E o menino, com a inocência que lhe permitia fantasiar em voz alta: “machinista”. Assim, com “ch”, porque ainda não dominava todos os sons vocais.
CRÔNICA: JOÃO EICHBAUM: O sonho dos meninos
Foi a primeira vez que os alunos a viram sorrir, e seu sorriso aberto, com todos os dentes parelhos, lhes permitiu estrondosa gargalhada.
Queria ser maquinista o menino que mal sabia falar, filho do doutor Karpilowsky, famoso médico da cidade, e da dona Olga, professora: duas profissões que não cabiam nos sonhos daqueles alunos, por serem maiores que seu estrato social.
Aquele gigante negro, que expelia fumaça pelas narinas de ferro e fungava feito um dragão, estava submetido ao domínio de um homem que, com um braço repousado na sua janela, aguardava o momento de puxar uma alavanca, para conduzir destinos. Nesse gesto, ele representava o poder e uma grandeza que fascinava até filho de doutores.
Mas, o meu sonho foi recebendo encontrões da vida, quando conheci você. Como chegaria eu, de volta de uma viagem, com minhas mãos calejadas, as unhas sempre de luto, impregnadas de graxa, o cansaço na pele, e eu todo cheirando a fumaça?
Como iria beijar você, menina linda, que jamais tinha sentido em sua pele um toque dos meus dedos, você, sonho maior do que qualquer outro que fosse permitido a um filho de ferroviário sonhar?

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