Policiais do Batalhão Ambiental foram inocentados por terem atirado em legítima defesa, segundo a Delegacia de Homicídios
JOSÉ MAURO BATISTA – PARALELO 29
A Polícia Civil de Santa Maria, por meio da Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPHPP), inocentou policiais do 2º Batalhão Ambiental da Brigada Militar que participaram da abordagem que resultou na morte do lenheiro e agricultor Valdemar Both, no interior do municipio, em 1º de julho deste ano.
Em nota, a Delegacia de Homicídios diz que os dois policiais militares (um homem e uma mulher) atiraram em Valdemar para se defender uma “agressão iminente” diante da reação do lenheiro a uma ação de fiscalização na propriedade dele, no Distrito de Palma.
“As imagens de vídeo e os laudos periciais comprovaram que a reação dos policiais, com disparos de arma de fogo, foi uma resposta direta a uma agressão injusta, atual e iminente, representando um risco real e imediato à vida dos agentes”, diz a nota repassada ao Paralelo 29 pelo delegado Adriano Winckelmann De Rossi, reproduzida abaixo.
A tese de legítima defesa segue o mesmo caminho da Brigada Militar, que já havia inocentado os dois brigadianos no Inquérito Policial Militar concluído em 1º de agosto, quando o fato completou um mês.
Antes mesmo da conclusão das investigações, representantes do Batalhão Ambiental e da Delegacia de Homicídios, já haviam adiantado em entrevistas e nota que os policiais militares tinham agido para se defender da investida de Valdemar com um machado.
Nota da Polícia Civil
“A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPHPP) de Santa Maria, concluiu o Inquérito Policial que apurava a morte de Valdemar Both, ocorrida em 1º de julho de 2025, durante uma intervenção da Brigada Militar em uma propriedade rural.
Após uma análise técnica e detalhada de todas as provas, a investigação determinou que os policiais militares envolvidos agiram sob a excludente de ilicitude da legítima defesa.
A decisão foi fundamentada em um robusto conjunto probatório, que incluiu laudos de necropsia, balística e, de forma decisiva, a análise das imagens das câmeras de segurança do local, que confirmaram a dinâmica dos fatos narrada pelos agentes.
A investigação demonstrou que, durante uma fiscalização de rotina por crime ambiental, a situação escalou de forma drástica quando o Sr. Valdemar Both, contrariado com os procedimentos, apanhou um machado e investiu contra a guarnição.
As imagens de vídeo e os laudos periciais comprovaram que a reação dos policiais, com disparos de arma de fogo, foi uma resposta direta a uma agressão injusta, atual e iminente, representando um risco real e imediato à vida dos agentes.
Ficou constatado que o uso da força foi moderado e estritamente necessário para neutralizar a ameaça letal, cessando imediatamente após o agressor ser contido.
Por não haver crime na conduta dos policiais, o inquérito foi finalizado e remetido ao Poder Judiciário sem o indiciamento dos mesmos.”
Advogado da família de lenheiro morto em abordagem policial estuda pedir reconstituição dos fatos
Advogado da família vai se manifestar após ler inquérito
O Paralelo 29 entrou em contato com o advogado Marcio Batista Obetine, que representa a família de Valdemar Both. O advogado disse que irá pedir cópia do inquérito para estudar o caso com mais profunidade. Segundo Obetine, a manifestação será feita após ele conversar com familiares do agricultor e lenheiro.
O advogado disse ainda que a conclusão dos inquéritos não significa o arquivamento do caso, já que a palavra final é do Ministério Público.
“vou pedir cópia (do inquérito da Polícia Civil) e marcar uma reunião com a Promotoria de Justiça. O delegado não arquiva, vai para o Ministério Público. Depois de estudar o inquérito e de conversar com a família, vou me manifestar”, disse Obetine.
Antes da conclusão dos inquéritos, Marcio Obetine participou do Estação 29, podcast do Paralelo 29, onde conversou com José Mauro Batista e Rodrigo Dias.
Morte de lenheiro: Advogado da família questiona abordagem da Brigada Militar
Relembre o caso
A morte de Valdemar Both, de 54 anos, teve grande repercussão, com manifestações nas redes sociais, principalmente de representantes do agronegócio. Protestos chegaram a ser organizados por familiares, vizinhos e representantes de entidades.
Agricultor e lenheiro, Valdemar estava em sua propriedade, na Estrada do Radar, no Distrito de Palma, na zona rural de Santa Maria, na tarde de 1º de julho, uma terça-feira.
Policiais do 2º Batalhão Ambiental da Brigada Militar faziam ronda na região e chegaram na propriedade para uma fiscalização. Informações de vizinhos afirmam que os brigadianos estariam averiguando uma denúncia de crime ambiental.
Por volta das 16h30min, a viatura chegou na propriedade do lenheiro. Depois de algumas verificações, quase uma hora depois, a dupla de PMs mostrou uma notificação para Valdemar e disse que alguns equipamentos seriam recolhidos.
Revoltado, o lenheiro começa a xingar os brigadianos. Imagens de videomonitoramento da propriedade mostraram o momento de tensão. Valdemar está do lado de fora de um galpão, onde estavam o brigadianos. O lenheiro caminha para entrar no galpão e reclama, aos gritos: “Não se pode mais trabalhar?”.
Nesse momento, ouve-se a brigadiana pedindo para o agricultor se acalmar. Na sequência, ouvem-se três disparos.
Os PMs alegaram que Valdemar pegou um machado e partiu para cima deles. No entanto, essa imagem não é possível ver com clareza no vídeo, já que a imagem é ruim.
Um tempo depois, os dois policiais entram na viatura, saem e retornam mais tarde, acompanhados. Mais de uma hora se passa até a chegada de uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
A essa hora, o local já tinha a presença de outros policiais da Brigada Militar e da Polícia Civil, bem como de peritos do Instituto Geral de Perícias (IGP) para fazer o levantamento.
O filho de Valdemar, Gabriel Both, de 19 anos, chegou em casa quando já havia grande movimentação. Foi ele que recolheu as imagens das câmeras para repassar ao advogado. A mulher de Valdemar, Cléria, de 49 anos, chegou mais tarde.
O trabalho seguiu até as 21h, quando o corpo do lenheiro foi removido para necropsia. O corpo de Valdemar foi velado no dia seguinte em uma capela da comunidade e levado para sepultamento em outra cidade do Rio Grande do Sul.

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