Júri realizado em Imbituba, Santa Catarina, durou dois dias
Depois de sete anos e meio da morte da modelo santa-marienses Isadora Viana Costa e de dois dias de júri, a Justça de Santa Catarina condenou o oficial de cartório Paulo Odilon Xisto Filho a 12 anos de reclusão em regime inicialmente fechado.
O júri, que começou na quarta-feira (3), se encerru na madrugada desta sexta-feira (5), na Comarca de Imbituba, Santa Catarina, onde ocorreu o crime, em maio de 2018, O julgamento durou quase 30 horas.
O Conselho de Sentença considerou que o réu praticou homicídio qualificado pela qualificadora feminicídio. O réu poderá recorrer da sentença, assim como o Ministério Público, autor da denúncia contra Paulo Odilon.
O crime: socos e chutes até a morte
Conforme a denúncia do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), Paulo Odilon, conhecido como Pauliho, conheceu Isadora em março de 2018 em Santa Maria, terra natal dos dois. Um tempo depois, o oficial convidou a namorada para passar uns dias com ele Imbituba, no litoral de Santa Catarina.
A relação, conforme relataram amigas da vítima, se tornou rapidamente conturbada, por conta de episódios de agressividade por parte de Paulo Odilon, principalmente quando estava sob efeito de cocaína, remédios controlados e álcool.
Assim, na madrugada de 8 de maio de 2018, após uma noite consumindo drogas e álcool, Paulo Odilon passou mal, e Isadora acionou a irmã dele. Paulo Odilon teve um surto de fúria ao saber que Isadora contou para a irmã dele que o oficial era usuário de drogas.[
Meia hora depois da saída da irmã, Paulo Odilon imobilizou a jovem e passou a agredi-la com socos, chutes e joelhadas no abdômen. As agressões violentas causaram lesões internas gravísimas que levam à morte da modelo.
O MPSC também meciona que o réu demorou para aconar o socorro, mesmo com a namorada violentamente agredida. Entre 7h15 e 7h3-, ele ligou duas vezes para um amigo médico, relatado que Isadora estava tendo uma convulsão. Somente mais tarde acionou a emergência. Quando socorridas chegaram no apartamento, Isadora estava inconsciente.
Levada ao hospital, a modelo não resistiu. O médico responsável pela eequipe acionou a Polícia Civil, que começou as investigações do caso.
Laudo aponta lesões graves
O laudo cadavérico de Isadora juntado aos autos do processo apontou trauma abdominal com laceração hepática, lesão de veia cava e hemorragia interna, compatível com agressão física de alto impacto e repetitiva.
O crime, de acordo com a Polícia Civil, ocorreu de forma súbita, brutal e sem chance de defesa, configurando, segundo a promotoria, um caso claro de feminicídio.
A perícia afastou a hipótese levantada pela defesa de que Isadora teria morrido em razão de overdose por conta do uso de cocaína.
Tentativa de encobrir o crime
Ainda de acordo com a investigação conduzida pela Polícia Civil, após matar Isadora, Paulo Odilon tentou encenar uma situação de convulsão e overdose.
Ele acionou os bombeiros às 7h30 daquela manhã e espalhou cartelas de remédios controlados pelo apartamento, além de ter modificado a cena do crime, escondendo um lençol sujo de sangue e vômito sobre o qual a vítima estava deitada.
Segundo a denúncia, com a ajuda de uma amiga do réu, os dois removeram e lavaram o lençol, impedindo a perícia oficial de acessar provas fundamentais para a investigação.
Armas, drogas e acessórios ilegais
Durante o cumprimento de mandado de busca e apreensão na residência de Paulo Odilon, em 14 de maio de 2018, a polícia encontrou diversos vestígios de uso de cocaína, roupas manchadas de sangue, além de um arsenal com armas e munições, incluindo uma pistola Glock, uma espingarda calibre 12 e mais de 140 munições.
O destaque da apreensão foi um acessório de uso restrito: uma mira a laser argentina, que resultou na acusação de posse ilegal de artefato restrito.
Trâmite judicial: sete anos de espera
Desde a morte de Isadora, o processo passou por fases complexas. Em julho de 2018, a Justiça recebeu a denúncia e decretou a prisão preventiva de Paulo Odilon, cumprida naquele mesmo mês.
No entanto, ele acabou solto em novembro do mesmo ano por determinação do então ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF) hoje aposentado.
Durante a instrução, foram ouvidas 30 testemunhas de acusação e defesa. Além disso, houve intensa produção de provas técnicas por peritos do juízo e da defesa.
O Ministério Público defendeu a pronúncia do oficial de cartório por homicídio triplamente qualificado (femíncído), além dos crimes conexos. A defesa tentou afastar as qualificadoras, alegando ausência de dolo e propondo versões alternativas para a morte.
Em decisão posterior, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou o desmembramento do processo no que diz respeito à posse de acessório restrito, mantendo no júri popular apenas as acusações de feminicídio e fraude processual.
O que diz a famíla da vítima
Familiares da jovem tentaram traduzir em palavras a dor da perda. A irmã gêmea de Isadora, Mariana Viana Costa, lembrou a falta da companheira de vida.
“A Isadora era a minha melhor amiga e eu nunca mais vou poder ter ela na minha vida. Isso que a gente lembra todos os dias. Uma dor que vai ficar para sempre”.
O pai, Rogério Froner Costa, falou sobre o alívio parcial que a condenação trouxe à família. “Contente eu não vou estar, mas com a consciência aliviada, o coração um pouco mais leve pra nós tentarmos recomeçar a nossa vida”.
Já a mãe, Cibelle Viana Costa, agradeceu a atuação do Ministério Público e destacou o vazio eterno deixado pela filha.
“Eu quero ressaltar a atuação do promotor e da promotora que foi excelente, ficamos muito satisfeitos e dizer que a minha dor nunca mais vai embora, que eu vou ter que conviver o resto da minha vida com essa falta da minha filha, mas que o nome e a história dela foram honrados”, declarou Cibelle, conforme o portal Guararema News.
A comunidade em geral, além dos familiares, e amigos da vítima, também acompanharam o julgamento. Durante os dois dias de sessão, o salão do júri esteve lotado.
O réu teve negado o direito de recorrer em liberdade, sendo encaminhado ao presídio para início do cumprimento da pena.
(Com informações da Guararema News)

