Paralelo 29

Arquiteto chinês que inspirou lei das cidades-esponja em Santa Maria é uma das vítimas de queda de avião no Pantanal

Foto: Tomaz Silva, Agência Brasil
JOSÉ MAURO BATISTA – PARALELO 29

A queda de um avião de pequeno porte, na terça-feira (23), na região do Pantanal, no Mato Grosso do Sul, matou quatro pessoas, entre elas o arquiteto chinês Kongjian Yu, que inspirou uma das leis mais interessantes já aprovadas em Santa Maria e que poderá, a médio prazo, significar mudanças de impacto na construção civil e em obras públicas.

Criador do conceito de cidades-esponja para enfrentamento de enchentes, Yu é citado em uma lei aprovada este ano pela Câmara de Vereadores e sancionada pelo prefeito Rodrigo Decimo (PSD). O texto propõe várias soluções defendidas pelo chinês (veja abaixo) e que poderão mudar a paisagem de Santa Maria no futuro.

O projeto que virou lei foi apresentado pelo vereador Adelar Vargas Bolinha (MDB), que propôs uma legislação municipal para reduzir o impacto de alagamentos.

Em maio deste ano, uma reportagem do Paralelo 29 abordou a lei aprovada pela Câmara de Vereadores. O texto propõe a transformação de Santa Maria em cidade-esponja, conceito que já é adotado em várias cidades do mundo e até mesmo do Brasil.

Cidades-esponja são projetadas para funcionar como uma floresta, com capacidade para deter, limpar e infiltrar águas usando soluções baseadas na própria natureza. Na justificativa do projeto de lei, Bolinha citou o paisagista chinês como inspiração para o conceito locla de cidade-esponja proposto na projeto que virou lei.

“O conceito de cidade-esponja foi criado pelo arquiteto paisagista chinês Kongjian Yu e vem sendo aplicado com sucesso em 16 cidades da China, além de outras ao redor do mundo, como Berlim, Copenhague e Nova York. Enquanto a gestão convencional das águas pluviais busca, por meio de drenos e tubulações, simplesmente transportar a água da chuva para rios e mares, a Cidade Esponja busca absorver a chuva e diminuir o escoamento superficial. A água absorvida pode ser armazenada, limpa e reutilizada”, diz a justificativa do projeto aprovado.

O QUE PROPÕE O PL DE BOLINHA QUE VIROU LEI MUNICIPAL

Proposta que virou lei municipal institui o Programa de Prevenção de Enchentes e Alagamentos no âmbito do Município de Santa Maria:

TELHADOS VERDES

  • Também chamados de telhados azuis-verdes, são camadas de vegetação instaladas sobre telhados convencionais, que ajudam a reter a água da chuva, melhorar o isolamento térmico dos edifícios e reduzir a emissão de carbono
  • A água pode ser reutilizada para regar plantas e jardins. O telhado verde serve para diminuir o impacto no sitema de esgoto pluvial convencional
  • Telhados verdes também criam habitats para pássaros e insetos, contribuindo para a biodiversidade urbana

JARDINS DE CHUVA

  • São pequenas depressões ajardinadas que coletam e infiltram a água da chuva, filtrando poluentes e promovendo a recarga dos aquíferos
  • Esses jardins são frequentemente plantados com espécies de plantas nativas e adaptáveis que podem tolerar períodos de inundação e seca. Eles são uma solução eficiente e estética para gerenciar o escoamento de água em áreas urbanas

VALAS OU TRINCHEIRAS DE INFILTRAÇÃO

  • Sistema usado para receptação das águas do escoamento superficial e para armazenamento temporário, proporcionado a infiltração destas no solo e reduzindo os volumes e vazões para os sistemas convencionais

BUEIROS ECOLÓGICOS

  • Sistema de bueiros instalados em vias públicas para armazenamento temporário dos resíduos das vias, impedindo o ingresso destes nas galerias subterrâneas

OUTRAS SOLUÇÕES DAS CIDADES-ESPONJA

. LAGOS E PÂNTANOS ARTIFICIAIS
  • são criados para armazenar grandes volumes de água da chuva e fornecer habitats para a vida selvagem
  • Esses corpos d’água ajudam a regular o fluxo da água, reduzindo o risco de inundações durante períodos de chuvas intensas
  • Esses corpos d’água ajudam a regular o fluxo da água, reduzindo o risco de inundações durante períodos de chuvas intensas Além disso, eles melhoram a qualidade da água ao permitir a sedimentação de partículas suspensas e a absorção de nutrientes pelas plantas aquáticas

PAVIMENTOS PERMEÁVEIS

  • São uma solução prática para reduzir o escoamento superficial e aumentar a infiltração de água no solo. Esses pavimentos são feitos de materiais porosos que permitem a passagem da água, como concreto permeável e blocos intertravados
  • São utilizados em calçadas, estacionamentos e ruas para mitigar o impacto da impermeabilização do solo
Sistemas de Biorretenção e Biofiltração
  • São áreas especialmente projetadas para capturar e tratar a água da chuva
  • Esses sistemas geralmente consistem em depressões ajardinadas que filtram a água através de camadas de solo, areia e vegetação, removendo poluentes antes que a água seja infiltrada no solo ou liberada em corpos d’água.
  • Essas áreas não só ajudam a gerenciar o escoamento da água, mas também melhoram a qualidade da água e promovem a biodiversidade

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Quais são as vantagens das cidades-esponja?

As cidades-esponja, segundo a Ecotelhado, empresa brasileira que trabalha com essse conceito, oferecem uma série de vantagens que vão além da simples gestão da água da chuva.

Essas áreas urbanas inovadoras promovem a sustentabilidade ambiental, melhoram a qualidade de vida dos habitantes e aumentam a resiliência às mudanças climáticas. A seguir, algumas das principais vantagens das cidades-esponja.

1. Redução de Enchentes

A principal vantagem das cidades-esponja é a redução do risco de enchentes urbanas. Ao aumentar a permeabilidade do solo e a capacidade de retenção de água, essas cidades mitigam o impacto das chuvas intensas e previnem inundações que podem causar danos significativos às infraestruturas e à população.

2. Melhoria da Qualidade da Água

As cidades-esponja contribuem para a melhoria da qualidade da água ao filtrar poluentes e sedimentos através de sistemas de biorretenção e biofiltração.

Esses sistemas ajudam a remover contaminantes da água da chuva antes que ela seja infiltrada no solo ou liberada em corpos d’água, protegendo os recursos hídricos e promovendo a saúde dos ecossistemas aquáticos.

3. Promoção da Biodiversidade

Infraestruturas verdes e azuis nas cidades-esponja criam habitats para uma variedade de espécies de plantas e animais, promovendo a biodiversidade urbana.

Esses espaços verdes oferecem refúgios para a vida selvagem e contribuem para a conservação da flora e fauna nativa, enriquecendo a ecologia urbana.

4. Melhoria do Microclima

As cidades-esponja ajudam a regular o microclima urbano ao aumentar a evapotranspiração e reduzir o efeito de ilhas de calor.

A vegetação presente em parques, jardins e telhados verdes resfria o ambiente através da transpiração e sombreamento, melhorando o conforto térmico e a qualidade do ar.

5. Benefícios Sociais e Recreativos

Parques, jardins e outras áreas verdes nas cidades-esponja proporcionam espaços recreativos e de lazer para a população. Esses espaços melhoram a qualidade de vida dos habitantes, promovem atividades físicas e oferecem oportunidades de interação social, fortalecendo o senso de comunidade e bem-estar.

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O que a lei pode significar na prática em Santa Maria

A lei das cidades-esponjá não significará, de imediato, uma revolução na construção civil, até porque não cria obrigação alguma. A lei busca implementar, em Santa Maria, o conceito que oferece soluções com base no que propôs o arquiteto chinês.

Na prática, por exemplo, a Prefeitura de Santa Maria poderá passar a exigir, em licitações de obras públicas, como pavimentação de ruas, construções de parques e praças, em edificações e na revitalização de espaços públicos, que as empreiteiras utilizem o conceito.

Também poderá lançar programas incentivando que a iniciativa privada implante esse tipo de tecnologia em empreendimentos imobiliários, como novos prédios e condomínios residenciais.

E, por fim, algumas previsões poderão ser feitas no Plano Diretor de Desenvolvimento Territorial e na legislação que regra a construção civil no município.

Presença no Brasil

Considerado um dos maiores arquitetos do mundo, o chinês Kongjian Yu ficou conhecido no Brasil por entrevistas no Fantástico, uma delas exibida este ano.

Em junho do ano passado, quando o Rio Grande do Sul enfrentava a maior enchente da sua história, o chinês esteve no Brasil, visitando o Rio de Janeiro. Em um evento, o arquiteto defendeu o conceito de cidade-esponja como solução para grandes desastres naturais.

O acidente

O acidente que matou Kongjian Yu e mais três ocupantes da arenove ocorreu na noite de terça-feira (23), em Aquidauana, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. O grupo iria fazer um documentário na região. As causas do acidente ainda estão sendo investigadas.

AS VÍTIMAS

  • Marcelo Pereira de Barros, piloto e proprietário da aeronave
  • Kongjian Yu, chinês considerado um dos maiores arquitetos do mundo
  • Luiz Fernando Feres da Cunha Ferraz, cineasta documentarista
  • Rubens Crispim Jr., diretor e documentarista

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