JOSÉ MAURO BATISTA – PARALELO 29

A queda de um avião de pequeno porte, na terça-feira (23), na região do Pantanal, no Mato Grosso do Sul, matou quatro pessoas, entre elas o arquiteto chinês Kongjian Yu, que inspirou uma das leis mais interessantes já aprovadas em Santa Maria e que poderá, a médio prazo, significar mudanças de impacto na construção civil e em obras públicas.
Criador do conceito de cidades-esponja para enfrentamento de enchentes, Yu é citado em uma lei aprovada este ano pela Câmara de Vereadores e sancionada pelo prefeito Rodrigo Decimo (PSD). O texto propõe várias soluções defendidas pelo chinês (veja abaixo) e que poderão mudar a paisagem de Santa Maria no futuro.
O projeto que virou lei foi apresentado pelo vereador Adelar Vargas Bolinha (MDB), que propôs uma legislação municipal para reduzir o impacto de alagamentos.
Em maio deste ano, uma reportagem do Paralelo 29 abordou a lei aprovada pela Câmara de Vereadores. O texto propõe a transformação de Santa Maria em cidade-esponja, conceito que já é adotado em várias cidades do mundo e até mesmo do Brasil.
Cidades-esponja são projetadas para funcionar como uma floresta, com capacidade para deter, limpar e infiltrar águas usando soluções baseadas na própria natureza. Na justificativa do projeto de lei, Bolinha citou o paisagista chinês como inspiração para o conceito locla de cidade-esponja proposto na projeto que virou lei.
“O conceito de cidade-esponja foi criado pelo arquiteto paisagista chinês Kongjian Yu e vem sendo aplicado com sucesso em 16 cidades da China, além de outras ao redor do mundo, como Berlim, Copenhague e Nova York. Enquanto a gestão convencional das águas pluviais busca, por meio de drenos e tubulações, simplesmente transportar a água da chuva para rios e mares, a Cidade Esponja busca absorver a chuva e diminuir o escoamento superficial. A água absorvida pode ser armazenada, limpa e reutilizada”, diz a justificativa do projeto aprovado.
O QUE PROPÕE O PL DE BOLINHA QUE VIROU LEI MUNICIPAL
Proposta que virou lei municipal institui o Programa de Prevenção de Enchentes e Alagamentos no âmbito do Município de Santa Maria:
TELHADOS VERDES
- Também chamados de telhados azuis-verdes, são camadas de vegetação instaladas sobre telhados convencionais, que ajudam a reter a água da chuva, melhorar o isolamento térmico dos edifícios e reduzir a emissão de carbono
- A água pode ser reutilizada para regar plantas e jardins. O telhado verde serve para diminuir o impacto no sitema de esgoto pluvial convencional
- Telhados verdes também criam habitats para pássaros e insetos, contribuindo para a biodiversidade urbana
JARDINS DE CHUVA
- São pequenas depressões ajardinadas que coletam e infiltram a água da chuva, filtrando poluentes e promovendo a recarga dos aquíferos
- Esses jardins são frequentemente plantados com espécies de plantas nativas e adaptáveis que podem tolerar períodos de inundação e seca. Eles são uma solução eficiente e estética para gerenciar o escoamento de água em áreas urbanas
VALAS OU TRINCHEIRAS DE INFILTRAÇÃO
- Sistema usado para receptação das águas do escoamento superficial e para armazenamento temporário, proporcionado a infiltração destas no solo e reduzindo os volumes e vazões para os sistemas convencionais
BUEIROS ECOLÓGICOS
- Sistema de bueiros instalados em vias públicas para armazenamento temporário dos resíduos das vias, impedindo o ingresso destes nas galerias subterrâneas
OUTRAS SOLUÇÕES DAS CIDADES-ESPONJA
. LAGOS E PÂNTANOS ARTIFICIAIS
- são criados para armazenar grandes volumes de água da chuva e fornecer habitats para a vida selvagem
- Esses corpos d’água ajudam a regular o fluxo da água, reduzindo o risco de inundações durante períodos de chuvas intensas
- Esses corpos d’água ajudam a regular o fluxo da água, reduzindo o risco de inundações durante períodos de chuvas intensas Além disso, eles melhoram a qualidade da água ao permitir a sedimentação de partículas suspensas e a absorção de nutrientes pelas plantas aquáticas
PAVIMENTOS PERMEÁVEIS
- São uma solução prática para reduzir o escoamento superficial e aumentar a infiltração de água no solo. Esses pavimentos são feitos de materiais porosos que permitem a passagem da água, como concreto permeável e blocos intertravados
- São utilizados em calçadas, estacionamentos e ruas para mitigar o impacto da impermeabilização do solo
Sistemas de Biorretenção e Biofiltração
- São áreas especialmente projetadas para capturar e tratar a água da chuva
- Esses sistemas geralmente consistem em depressões ajardinadas que filtram a água através de camadas de solo, areia e vegetação, removendo poluentes antes que a água seja infiltrada no solo ou liberada em corpos d’água.
- Essas áreas não só ajudam a gerenciar o escoamento da água, mas também melhoram a qualidade da água e promovem a biodiversidade
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Quais são as vantagens das cidades-esponja?
As cidades-esponja, segundo a Ecotelhado, empresa brasileira que trabalha com essse conceito, oferecem uma série de vantagens que vão além da simples gestão da água da chuva.
Essas áreas urbanas inovadoras promovem a sustentabilidade ambiental, melhoram a qualidade de vida dos habitantes e aumentam a resiliência às mudanças climáticas. A seguir, algumas das principais vantagens das cidades-esponja.
1. Redução de Enchentes
A principal vantagem das cidades-esponja é a redução do risco de enchentes urbanas. Ao aumentar a permeabilidade do solo e a capacidade de retenção de água, essas cidades mitigam o impacto das chuvas intensas e previnem inundações que podem causar danos significativos às infraestruturas e à população.
2. Melhoria da Qualidade da Água
As cidades-esponja contribuem para a melhoria da qualidade da água ao filtrar poluentes e sedimentos através de sistemas de biorretenção e biofiltração.
Esses sistemas ajudam a remover contaminantes da água da chuva antes que ela seja infiltrada no solo ou liberada em corpos d’água, protegendo os recursos hídricos e promovendo a saúde dos ecossistemas aquáticos.
3. Promoção da Biodiversidade
Infraestruturas verdes e azuis nas cidades-esponja criam habitats para uma variedade de espécies de plantas e animais, promovendo a biodiversidade urbana.
Esses espaços verdes oferecem refúgios para a vida selvagem e contribuem para a conservação da flora e fauna nativa, enriquecendo a ecologia urbana.
4. Melhoria do Microclima
As cidades-esponja ajudam a regular o microclima urbano ao aumentar a evapotranspiração e reduzir o efeito de ilhas de calor.
A vegetação presente em parques, jardins e telhados verdes resfria o ambiente através da transpiração e sombreamento, melhorando o conforto térmico e a qualidade do ar.
5. Benefícios Sociais e Recreativos
Parques, jardins e outras áreas verdes nas cidades-esponja proporcionam espaços recreativos e de lazer para a população. Esses espaços melhoram a qualidade de vida dos habitantes, promovem atividades físicas e oferecem oportunidades de interação social, fortalecendo o senso de comunidade e bem-estar.
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O que a lei pode significar na prática em Santa Maria
A lei das cidades-esponjá não significará, de imediato, uma revolução na construção civil, até porque não cria obrigação alguma. A lei busca implementar, em Santa Maria, o conceito que oferece soluções com base no que propôs o arquiteto chinês.
Na prática, por exemplo, a Prefeitura de Santa Maria poderá passar a exigir, em licitações de obras públicas, como pavimentação de ruas, construções de parques e praças, em edificações e na revitalização de espaços públicos, que as empreiteiras utilizem o conceito.
Também poderá lançar programas incentivando que a iniciativa privada implante esse tipo de tecnologia em empreendimentos imobiliários, como novos prédios e condomínios residenciais.
E, por fim, algumas previsões poderão ser feitas no Plano Diretor de Desenvolvimento Territorial e na legislação que regra a construção civil no município.
Presença no Brasil
Considerado um dos maiores arquitetos do mundo, o chinês Kongjian Yu ficou conhecido no Brasil por entrevistas no Fantástico, uma delas exibida este ano.
Em junho do ano passado, quando o Rio Grande do Sul enfrentava a maior enchente da sua história, o chinês esteve no Brasil, visitando o Rio de Janeiro. Em um evento, o arquiteto defendeu o conceito de cidade-esponja como solução para grandes desastres naturais.
O acidente
O acidente que matou Kongjian Yu e mais três ocupantes da arenove ocorreu na noite de terça-feira (23), em Aquidauana, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. O grupo iria fazer um documentário na região. As causas do acidente ainda estão sendo investigadas.
AS VÍTIMAS
- Marcelo Pereira de Barros, piloto e proprietário da aeronave
- Kongjian Yu, chinês considerado um dos maiores arquitetos do mundo
- Luiz Fernando Feres da Cunha Ferraz, cineasta documentarista
- Rubens Crispim Jr., diretor e documentarista

