Paralelo 29

Quatro livros que resgatam a história apagada e invisibilizada dos negros em Santa Maria

Foto de Gustavo Padilha e família em reportagem do jornal A Razão em 25 de maio de1935/Reprodução

Outras três obras também indicadas, embora não tratem do tema, trazem referências que contemplam a nova historiografia da cidade

JOSÉ MAURO BATISTA – PARALELO 29
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Você já ouviu falar em Sisnando Antônio de Oliveira, José Francisco do Nascimento, Osório Nunes do Nascimento? E em Domingos e Maria dos Santos? Cassiano Vernes dos Santos? Gustavo Padilha? Todos eles são personagens da história de Santa Maria que não constam nos livros tradicionais e que só agora começam a ter suas trajetórias resgatadas.

O Paralelo 29 sugere quatro livros lançados nos últimos anos por pesquisadores de Santa Maria que tratam dos negros que viveram em Santa Maria nos anos finais da escravidão e no pós-abolição. Outros três, embora não se dediquem a essa questão histórica, trazem alguma referência que completam a nova historiografia da cidade.

Graças à dedicação desses historiadores e à Lei do Livro da Câmara de Vereadores, essas obras estão, de certa forma, disponíveis à população.

Está tudo escrito em documentos

Para reescrever a história com a inclusão de personagens historicamente excluídos da historiografia oficial, esses pesquisadores desbravaram arquivos, certidões de nascimento, de casamento e de óbitos, fichas de internação hospitalar, registros de batismo, documentos de compra e venda de escravos, censos, atas da Câmara de Vereadores, anúncios de jornais, processos criminais e inventários, entre outras fontes.

Apesar das dificuldades, esses historiadores procuraram “agulha em palheiro” e encontraram informações importantes que foram cruzadas com informações de memorialistas da cidade registradas em livros que contaram, sobretudo, a história de portugueses, alemães e italianos.

Os personagens acima citados constam em boa parte dos livros que o Paralelo 29 recomenda. O editor do site, que assina esta reportagem, leu todos eles, com exceção de um à que ainda não teve acesso. Trata-se de “Moreno rei dos astros a brilhar, querida União Familiar”, lançado em 2015 por Franciele Rocha de Oliveira.

Nele, a historiadora resgata a história de um clube negro que surgiu no pós-abolição e que resistiu até a primeira década deste século. Mesmo assim, pela importância do livro, ele é recomendado. O clube ficava na Rua Barão do Triunfo, na antiga Vila Brasil.

OS LIVROS

1) No Alvoroço da Festa, , não havia corrente de ferro que os prendesse, nem chibata que intimidasse – A comunidade negra de Santa Maria e sua Irmadade do Rosário (1873-1942)

De autoria de Ênio Grigio, historiador e filósofo, professor do Instituto Federal Farroupilha (IFFar) – Campus de Julio de Castilhos, a obra resgata a história da Irmandade do Rosário, um grupo católico formado por negros nos primeiros anos do pós-abolição.

Os cinco primeiros nomes citados no início deste texto estão entre os integrantes daquela Irmandade, que resistiu até 1942, depois de uma longa batalha na Justiça contra o clero local para reaver a sua sede confiscada pelo padre Caetano Pagliuca, aquele para o qual se ergueu uma imponente estátua na Avenida Rio Branco, em frete à Catedral Metropolitana.

2) Entre o trote dos cavalos e o ronco dos motores – Os trabalhadores de transportes urbanos de Santa Maria no pós-abolição (1898-1937)

Escrito por Luiz Fernando Rodrigues, mestre em História pela UFSM e professor no Colégio Scalabriano Nossa Senhora Medianeira, em Bento Gonçalves, o livro narra a saga dos negros recém-libertos pela sobrevivência.

Entre as poucas profissões que sobraram aos ex-cativos e seus descendentes estavam a de jornaleiro e de transportadores (carroceiros, boleeiros, chauffeurs).

A obra desvenda documentos e identifica muitos desses profissionais, suas relações familiares e a criação dos primeiros sindicatos de trabalhadores (ainda não tinham esse nome).

Narra ainda a chegada do automóvel em Santa Maria e o que isso significou, principalmente para a vida de boleeiros, carroceiros, pipeiros, etc…) e seus familiares.

O livro é uma denúncia social do preconceito racial e da exclusão que continuaram existido mesmo depois de o Brasil abolir oficialmente a escravidão.

3) Aldeia, vilas e Sobrados – Uma história da desigualdade urbana no sul do Brasil (Santa Maria, Primeira República)

Aobra de Felipe Farret Brunhauser, educador, gestor e pesquisador na área de História e Educação graduado pela UFSM, é uma contundente denúncia social sobre o tema habitação na Santa Maria pós-abolição.

Brunhauser pesquisou documentos de cobranças de impostos e atas da Câmara de Vereadores, entre outros, para mostrar como fucionavam os aforamentos (doação de terrenos) em nível municipal e quem se apropriava das melhores áreas da cidade.

Mais que isso, Brunhauser redesenhou os mapas e plantas da Santa Maria do passado, em diferentes períodos, para mostrar que os bairros habitados por negros e indígenas eram excluídos propositalmente da cartografia oficial da cidade, como se devessem ser escondidos.

A pesquisa mostra, com dados, o nascimento do capitalismo rentista a partir do mercado de aluguéis em Santa Maria. Depreende-se que os pobres sem casa, majoritariamente a população negra, enriqueciam donos de casas de aluguel.

4) A Instrução Pública em Santa Maria da Boca do Monte no Século XIX – História e Memória – 1838 a 1889

Escrito pr Elisabeth Weber Medeiros, professora aposentada de História, o livro não faz uma referência à população negra especificiamente.

Mas ao mostrar as dificuldades dos professores e a precariedade do ensino no período pesquisado, a professora traz informações importantes como a negação do acesso à educação (proibido por lei) a escravos e mesmo a negros libertos,

5) Fragementos da História Ferroviária Brasileira – Fontes Documetais/Principais Ferrovias/Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS)/Santa Maria, a “Cidade Ferroviária

Este livro do professor de História da UFSM João Rodolpho Amaral Flôres faz parte da Série “Estudos Ferroviários”, que se propõe a resgatar a história da ferrovia brasileira e de Santa Maria.

Embora o livro não trate especificamente de trabalhadores negros, a história dos descendentes de africanos que vieram escravizados para o Brasil e, consequentemente, para Santa Maria é mencionada na obra, que conta, por exemplo, sobre os bairros e vilas ferroviárias, entre eles o Vila Rica, atual Bairro do Rosário, de população majoriamente negra e berço da Irmandade do Rosário e do Clube Treze de Maio, duas das primeiras entidades negras do pós-abolição.

6) A BOCA, A ESQUINA E O RECANTO: Territórios urbanos e memória coletiva no Centro de Santa Maria, RS

A antropólga e doutora Rojane Brum Nunes, graduada em Ciências Sociais pela UFSM, autora do livro, não se debruça especificamente sobre etnias.

Contudo, ao recolher histórias de frequentadores assíduos do Centro de Santa Maria, principalmente idosos, entre 2008 e 2013, deparou-se com ferroviários e outros tipos populares, entre eles o chefe da Boca Maldita, à época, que era negro e narra sua ligação com a sociedade Treze de Maio, um dos clubes negros de Santa Maria.

7) Moreno rei dos astros a brilhar, querida União Familiar, a monografia rememorou a história do União Familiar e a luta por justiça e direitos do povo negro em Santa Maria

Escrito pela historiadora Franciele Rocha de Oliveira a partir do seu TCC(Trabalho de Conclusão de Curso), em 2014, na UFSM, o livro resgata a história do União Familiar, um dos clubes negros de Santa Maria.

Sisnando, que pertenceu à Irmandade do Rosário, citado também no início do texto, é um dos personagens centrais da obra. Fundado em 1896, pouco tempo depois da abolição (13 de maio 1888), o União Familiar teve, entre seus dirigentes e frequentadores, transportadores urbanos referidos nos livros de Luiz Fernando Rodrigues (Entre o trote dos cavalos e o ronco dos motores) e de Ênio Grigio, sobre a Irmandade do Rosário

Retratos da exclusão e da continuidade

Os livros citados acima são retratos da exclusão e da continuidade da sociedade escravocrata sob novo formato. Ao deixarem as zenzalas, os ex-cativos continuaram servindo a seus senhores, seja na casa grande ou em serviços precários como o de transportes e domésticos.

As pesquisas escancaram o mundo nos tempos da escravidão como no pós-abolição, dão nome e sobrenome aos donos de escravos e mostram como os africanos, estes muitas vezes identificados somente pelo pronome, por sua região de origem, pelo sexo ou pelo tipo físico, contribuíram para a construção de riquezas que jamais usufruíram.

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