ALESSANDRA CAVALHEIRO – JORNALISTA
É simbólico e necessário que a 30ª Conferência das Partes, a COP 30, aconteça em Belém, no Pará. O coração da Amazônia, um dos maiores patrimônios naturais do planeta, recebe líderes, cientistas e ativistas em busca de soluções para a crise climática que já mostra sua força em todas as partes do mundo.
Ver essa movimentação inspira. Ideias, compromissos e pessoas cheias de garra se unem para tentar frear o avanço do aquecimento global — resultado direto do aumento dos gases de efeito estufa e da exploração desenfreada dos recursos naturais.
O peso da ausência e o discurso negacionista
Mas o otimismo se choca com a realidade. O maior devedor climático do planeta, os Estados Unidos, segue sem assumir plenamente sua responsabilidade. O país, que deveria liderar a transição verde, ainda financia combustíveis fósseis e alimenta discursos negacionistas.
Mais preocupante ainda é ver brasileiros admirando as ideias retrógradas e destrutivas de líderes como Donald Trump, que transformam a ignorância em bandeira política.
Ironia dolorosa: proteger o meio ambiente é também proteger a economia — mas alguns ainda não perceberam isso.
O alerta que vem com o vento
Dias antes da COP, um tornado sem precedentes atingiu o Paraná, deixando sete mortos, centenas de feridos e destruindo 90% da cidade de Rio Bonito do Iguaçu.
A tragédia comoveu o país. Mas o que entristece é ouvir, novamente, as frases que tentam naturalizar o desastre:
“É coisa da natureza.”
“Sempre aconteceu.”
“Foi uma fatalidade.”
Não foi. É o clima respondendo às agressões humanas — e os cientistas avisam isso há mais de 30 anos.
Desde a Rio 92, o recado é o mesmo.
Desde a Cúpula da Terra, a famosa Rio 92, os especialistas repetem: eventos extremos vão se tornar mais intensos e mais frequentes enquanto continuarmos queimando combustíveis fósseis e emitindo gases de efeito estufa em níveis recordes.
Em 2024, o mundo bateu novo recorde no uso de carvão, petróleo e gás. Não é opinião, é ciência. E ignorar a ciência, agora, é uma escolha.
Ignorância que custa caro
Há quem seja ignorante por falta de oportunidade.
E há quem escolha ser — por conveniência, ideologia ou desprezo.
Talvez só entendam quando forem eles os atingidos. Quando um tornado de 250 km/h levar não só suas casas, mas a crença de que “isso nunca aconteceria aqui”.
Escrever com esperança
Ainda assim, escrevo. E escrevo com esperança.
Porque existem pessoas e projetos que provam que cuidar do planeta é possível, inteligente e lucrativo. Porque preservar a natureza é preservar a vida — a nossa e a das próximas gerações.
Em tempos de negação e descaso, escrever a favor da vida é um ato de resistência.
E ainda vale, e sempre vai valer a pena.

