DIOMAR KONRAD – PUBLICITÁRIO E CRONISTA
Duas amigas se encontram em um lugar neutro, público, daqueles que não comprometem ninguém.
– Oi, amiga, como está? Quanto tempo?
– Muito tempo. Estou muito ocupada. Ainda mais agora por conta do aniversário do meu caçula. Tenho que preparar a festa, mandar os convites, comprar os ingredientes e a bebida, arrumar o lugar, preparar os lanches…
– Sério que você ainda está nessa? Cansei de ver a minha mãe fazer isso. A sacada agora é alugar um lugar, tem muito mais vantagens…
– Me fala, como é?
– Procura um desses lugares que fazem festas. Eles organizam tudo e, dependendo da quantidade de pessoas que você conseguir levar, o aniversário sai de graça.
– Mas quem paga a conta?
– Os convidados, por adesão. E tem horário para entrar e para sair. Nada de ficar esperando o último convidado sair. E você pode inventar uma desculpa e sair antes. E além de não gastar nada, o seu filho ainda vai ganhar presentes.
– Pois é, na última festa, fiquei quase dois dias limpando a casa. Sem contar com as coisas que os convidados, aqueles pestinhas, quebraram. Fiquei no prejuízo. E mais da metade que comprei, sobrou.
– Amiga, o conceito da moda agora é amizade por adesão. Ninguém vai na casa de ninguém, não se fica sabendo nada da vida do outro e se encontram ocasionalmente, em algum lugar como este, ficam pelo tempo que desejarem e combinam de se encontrar novamente quando estiverem a fim. Você também não precisa investir em nada dentro de casa para agradar os outros, compra apenas o que te serve. Aquele dinheiro da TV nova, investe em roupas, é muito mais legal…
– Sabe que é uma boa. Cansei de receber visitas invejosas, que iam lá em casa somente para bisbilhotar, para saber o que eu tinha comprado, como eu vivia. E depois tinha que aguentar até a visita ir embora, é chato demais…
– O negócio agora é por adesão… Tá a fim de sair com alguém, chama no zap e aproveita… Tem muita gente disponível, nem sempre no mesmo nível, mas vale a pena.
– Mas existem regras para isso, tipo assim, um código de conduta?
– Não se deve marcar duas adesões com a mesma pessoa na mesma semana, pois corre o risco de transformar a adesão em adesivo, entende?
– Sim…
– Aderiu, tira foto. É meio que uma tradição registrar que a adesão deu certo. Também serve para mostrar que que você é adesível… Tem outra que é obrigatória. Não pode dizer que está mal e depois aparecer em selfies, pega muito mal, meio que se queima nesse meio. Outra coisa muito ruim é marcar uma adesão e depois levar a pessoa para sua casa. Isso é totalmente contra os princípios, pois a pessoa está se fazendo de adesivista para engatar uma relação.
– Tem mais alguma coisa que eu precise saber?
– Sim, tem um vocabulário próprio da prática de adesão, que são os nomes dados a alguns tipos de adesão. Aderido é uma pessoa que não gosta muito, mas acaba indo na onda. Adesavisado é uma pessoa que vai em uma adesão sem querer, pensando que é um encontro. Adeinvasivo é aquela pessoa que pergunta demais sobre o outro. Ademalandro é aquele que não quer pagar a sua parte na conta. Aderiu, racha as despesas. Adedistraído é aquele que não presta atenção ao que seu aderido está falando. E adesivo é o grudento, aquele que quer logo marcar outra adesão. Tem também o adeclinante, que marca e não vai, e o ademorado, que sempre chega atrasado. O adensioso, por sua vez, sempre chega antes.
– Você se enquadra em uma destas categorias?
– Eu seria a adebochada.
– Sábado tem churrasco na casa da Cláudia, você vai?
– Pela Cláudia, eu vou, gosto muito dela. Mas ainda faço ela mudar de ideia…
– Bem, amiga, tenho que ir, foi bom te encontrar. O que está fazendo por aqui?
– Marquei uma adesão… Lá vem a pessoa. Falei que só tinha duas horas…

