Docente de Relações Internacionais acredita que houve um acordo entre o chavismo e o governo Trump para afastar China e Rússia
JOSÉ MAURO BATISTA – PARALELO 29
No último sábado (3/1) o mundo acordou perplexo e preocupado com o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do presidente do país, Nicolás Maduro, que foi levado para Nova Iorque para ser julgado sob a acusação de narcotráfico.
Para entender os impactos que essa ação terá a curto, médio e longo prazos não só para o continente, mas, também, para todo o mundo, o Paralelo 29 ouviu o professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) José Renato Ferraz da Silveira, doutor em Ciências Sociais pela PUC de São Paulo
Invasão muda o tabuleiro da geopolítica sul-americana
Paralelo 29 – A região corre algum risco de instabilidade a partir da crise envolvendo a Venezuela agravada com a intervenção dos EUA? China e Rússia poderão se envolver no conflito?
José Renato – A Invasão dos EUA à Venezuela muda o tabuleiro da geopolítica sul-americana. A ofensiva confirma algo que já vinha sendo sinalizado: a política externa de Trump para a América Latina representa um retorno explícito à lógica da Doutrina Monroe. A ideia de que o hemisfério ocidental deve permanecer sob influência direta dos Estados Unidos reaparece sem grandes preocupações com a retórica multilateral que marcou décadas anteriores.
Nos últimos meses, Washington reforçou sua presença militar no Caribe, deslocou porta-aviões, navios de guerra e caças, ampliou sanções econômicas e anunciou bloqueios ao petróleo venezuelano.
Trump também afirmou ter autorizado operações de inteligência dentro do território da Venezuela e classificou cartéis latino-americanos como organizações terroristas, criando uma base política para o uso da força.
A invasão da Venezuela obriga os países sul-americanos a encarar uma realidade incômoda: a arquitetura de segurança regional sempre dependeu, em maior ou menor grau, da postura dos Estados Unidos. Quando essa postura muda, o vazio estratégico aparece. Governos da região agora precisam decidir como reagir.
Condenar a ação significa defender princípios históricos, mas pode gerar retaliações diplomáticas ou econômicas. Apoiar, ainda que de forma silenciosa, significa aceitar a normalização da força como instrumento de reorganização política regional.
No caso do Brasil, o dilema é ainda mais evidente. O país construiu sua política externa sobre pilares claros: não intervenção, autodeterminação dos povos e solução pacífica de controvérsias. Uma ação militar estrangeira em sua vizinhança imediata testa esses princípios como poucas vezes na história recente.
Ficar em silêncio pode ser lido como conivência. Uma condenação dura pode tensionar a relação com Washington em um momento sensível. O desafio brasileiro será sustentar uma posição própria, sem cair no isolamento e sem abrir mão de sua coerência histórica.
No plano concreto, os impactos não demoram a aparecer. A instabilidade venezuelana afeta diretamente a fronteira norte do Brasil.
Uma operação militar desse porte tende a provocar novos fluxos migratórios, a circulação de grupos armados irregulares e o fortalecimento de redes criminosas que se aproveitam do caos institucional. Isso exigirá do Estado brasileiro mais presença na região amazônica, mais coordenação entre Forças Armadas, Polícia Federal e autoridades civis, além de uma resposta humanitária consistente. É uma equação cara, politicamente sensível e difícil de executar em um ambiente interno marcado por restrições fiscais e disputas políticas.
Quanto a participação russa e chinesa, considero improvável. Veremos notas de repúdio, protestos diplomáticos de ambos os países e “lições” de cinismo e hipocrisia. A Rússia está envolvida em guerra com a Ucrânia. E a China quer resolver logo a questão de Taiwan.
Tudo reforça a hipótese de um acordo entre chavismo e Casa Branca
Paralelo 29 – Ainda dentro dessa primeira questão, se China e Rússia são aliadas do governo venezuelano por que foi tão fácil o ataque dos EUA?
José Renato – China e Rússia são parceiros econômicos e “aliados” da Venezuela. A China e a Rússia enviaram cerca de R$ 5 bilhões em armamentos para a Venezuela desde 2010, segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo.
A organização indica que parte dos equipamentos estão inclusos em acordos de US$ 500 milhões, com a China, e de US$ 484 milhões, com a Rússia. Entre os armamentos recebidos, destacam-se: mísseis guiados, aviões de combate, tanques e helicópteros.
Foram enviados nesse mesmo período mais de 400 blindados, como o modelo soviético BMP-3, além do ZBD-05, veículo blindado anfíbio dos chineses.
Os “aliados” também enviaram mais de 5 mil mísseis. Pois bem, helicópteros americanos entraram facilmente em espaço aéreo venezuelano.
Lembrando que helicópteros são geralmente mais vulneráveis a certas ameaças do que aeronaves de asa fixa (como caças ou bombardeiros).
Eles operam em altitudes mais baixas e velocidades menores, tornando-os alvos mais fáceis para armas de curto alcance, como mísseis portáteis (MANPADS) e fogo antiaéreo de pequeno calibre.
O sistema de defesa antiaérea venezuelano comprado da Rússia de 6 bilhões não foi utilizado. Aviões Sukhoi (Сухой) – renomada fabricante russa de aeronaves, conhecida principalmente por seus caças militares avançados (como os Su-27, Su-30, Su-35) e também por aviões de ataque (Su-25) e acrobáticos (Su-26), além de jatos civis como o Superjet 100 – de última geração também não foram usados…
Tudo reforça a hipótese de um acordo entre o regime venezuelano (chavista) e a Casa Branca. Trump impôs certas condições e termos. E os militares venezuelanos do regime aceitaram. Maduro foi descartado.
Paralelo 29 – O Trump pegou o Maduro mas não derrubou o governo venezuelano. Ele está blefando, jogando¿ Pode ocorrer o que ocorreu com o Brasil com as revogações de tarifaço e de sanções a ministros do STF?
José Renato – Diante de todos os fatos e evidências, parece que é inegável que houve um acordo entre o regime venezuelano com Trump.
Lembremos que Trump descartou que a oposição venezuelana chegue ao poder. Trump disse que María Corina Machado não tem ‘apoio ou respeito’ para governar a Venezuela.
As tratativas de Trump com a “nova Venezuela” é o continuísmo do regime chavista agora com uma “nova roupagem”. Podemos citar a famosa frase de Giuseppe Tomasi di Lampedusa é:
“Se quisermos que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude“. Ou seja, Maduro deveria ser afastado muito em virtude de sua imagem negativa associada a ditadura, à corrupção, ao tráfico de drogas e etc. Com a prisão dele e o julgamento nos Estados Unidos, esse “problema” está resolvido.

Regime venezuelano cooperará com o governo Trump e se afastará de China e Rússia
Paralelo 29 – Quando a gente vai ter mais clareza do que realmente vai ocorrer na América Latina a partir dessa ofensiva do governo Trump¿ E também do futuro da própria Venezuela?
José Renato – Eu gosto particularmente de uma frase de Magalhães Pinto (ex-deputado federal, Governador de MG e ministro) que retrata bem a política doméstica e internacional: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”.
Com a imprevisibilidade da própria natureza das Relações Internacionais e o comportamento errático e incerto de Trump, teremos em breve novos acontecimentos.
Eu projeto um cenário em que o regime venezuelano cooperará com o governo de Trump e se afastará de China e Rússia. Mas a Colômbia pode ser a bola da vez?
Trump diz que Venezuela está morta e que ação militar na Colômbia “soa bem”. O presidente estadunidense só encontrará limites em suas ações externas se ocorrer impedimentos dentro do próprio Estados Unidos. O que ele tentará impedir. A situação é muito crítica e perigosa.
Paralelo 29 – A Venezuela corre o risco de uma guerra civil e de uma nova imigração em massa?
José Renato – Num primeiro momento, descarto uma guerra civil. Já que teremos a continuidade do regime. Quanto a imigração em massa, é um cenário que não pode ser descartado.
A evolução da negociação entre a Casa Branca e o regime venezuelano é a variável mais importante para dar estabilidade por lá.
Colômbia é o país mais ameaçado de uma possível intervenção
Paralelo 29 – O Brasil e países vizinhos correm algum risco de intervenção norte-americana, de invasão mesmo ou para cada país há uma estratégia trumpista?
José Renato – A Colômbia é o país mais ameaçado de uma possível intervenção dos Estados Unidos. Trump disse palavras muito duras contra o presidente colombiano. Ele chamou Petro de doente e voltou a dizer que ele produz e vende cocaína para os EUA…
A narrativa para justificar ação militar contra a Venezuela – de combater “Estados narcoterroristas” – o novo rótulo político criado pelos Estados Unidos para “criar guerras” – se aplica a Colômbia.
Colômbia e Peru são os principais países produtores de cocaína no mundo, juntamente com a Bolívia. Juntos, esses três países sul-americanos respondem por praticamente toda a produção global da droga.
Esses três países seriam alvos dos Estados Unidos se a narrativa da luta contra Estados narcoterroristas. Venezuela e Brasil são países importantes nas rotas do tráfico internacional de drogas.
Mas devo lembrar que o discurso de guerra contra Estados narcoterroristas sumiu das falas de Trump e e dos secretários de Guerra e de Estado dos Estados Unidos. Somente a oposição brasileira vem papagueando essa narrativa.
Brasil terá de agir como fator de equilíbrio
Paralelo 29 – Os brasileiros devem ficar preocupados com a crise na Venezuela¿ Que preocupações deveriam ser essas?
José Renato – A ação dos Estados Unidos também reverbera no debate interno brasileiro. A opinião pública tende a se dividir entre leituras ideológicas opostas, reativando discussões sobre imperialismo, democracia, direitos humanos e alinhamentos internacionais.
As redes sociais já mostram esse embate, que pressiona o governo a se posicionar rapidamente.
O risco é transformar política externa em combustível para polarização doméstica.
Administrar esse ruído será tão importante quanto lidar com os efeitos diplomáticos externos. Em ano eleitoral, teremos o acirramento e o aumento da polarização política. E o debate sobre política externa ganhará novos contornos e nuance na eleição presidencial.
Outro ponto é que o Brasil, o desafio central será agir como fator de equilíbrio. Defender a legalidade internacional, preservar seus interesses nacionais e evitar que a região mergulhe em uma lógica de confrontos permanentes.
Em um cenário em que a força volta a falar alto, insistir na política como instrumento legítimo de mediação deixa de ser idealismo e passa a ser necessidade estratégica.
Paralelo 29 – Fala-se em uma suposta traição a Maduro pelos próprios companheiros de governo e das Forças Armadas? Qual sua análise dessa especulação?
José Renato – Todas as evidências reforçam essa perspectiva. A possível continuidade do regime, a facilidade que Maduro e a esposa foram “encontrados” e “sequestrados” pela Delta Force – tropa de elite dos Estados Unidos – o não uso de instrumentos de defesa para repelir a “invasão americana” e as acusações que pesam contra Maduro que será julgado pela Justiça americana e leis americanas.

