Paralelo 29

Memória: Morre José Pereira, o Português, que foi dono do lendário Café Cristal, em Santa Maria

Foto: Reprodução, Facebook
JOSÉ MAURO BATISTA – PARALELO 29

Morreu nesta quarta-feira (18), em Santa Maria, o empresário José Pereira, de 81 anos. Conhecido como seu José ou Português, José Pereira marcou época no Coração do Rio Grande como proprietário do Café Cristal, restaurante, bar e lancheria que funcionou inicialmente no Calçadão.

José Pereira se tratava de um câncer em Santa Catarina, onde tem um filho, o médico Alexandre Sacol Pereira, conhecido na cidade como Dr Sacol.

Casado com Cleusa Terezinha Sacol Pereira, José teve dois filhos, Alexandre e Andréia Sacol Pereira, que morreu em dezembro de 2024. Ele deixa, ainda, três netos.

José Pereira seria sepultado no Cemitério de Boca do Monte. Ele tinha uma propriedade no distrito, onde costumava passar os dias de descanso.

De terras portuguesas ao Coração do Rio Grande

Em seu perfil no Facebook, o médico Alexandre Sacol Pereira, que vive em Bombinhas (SC), publicou um longo texto em homenagem ao pai. Sacol lembra que o pai veio de Portugal ainda jovem e se estabeleceu em Santa Maria.

Em um trecho da homenagem ao pai, Alexandre Sacol escreveu:

“Chegou ao Brasil ainda adolescente, trazendo de Portugal a coragem de quem deixa sua terra para construir um futuro com trabalho e dignidade.

Em Santa Maria, encontrou sua nova casa e foi ali que escreveu uma trajetória marcada por esforço, amizade e honra.

À frente do tradicional Café Cristal, ajudou a consolidar um dos mais emblemáticos espaços de convivência político-cultural da cidade. O café foi palco de encontros, debates e histórias que atravessaram gerações.

Mas, mais do que comerciante, José era presença. Acolhia a todos com naturalidade, sem distinções, sempre com uma palavra sincera e amiga.

Era, essencialmente, um homem doce. Amigo de todos. De integridade e honestidade inquestionáveis“.

Do histórico Cristal do Calçadão à Pasqualine: a história continuou

Café Cristal nos anos 80/Foto: Vava Etchpare (Acervo de Lúcio Bop Gaiber)

No início da década de 1970, depois adquiriu o Café Cristal, localizado no Calçadão, no Centro de Santa Maria. Nesse local, o bar, restaurante e lancheria funcionou até junho de 1988.

Depois dessa data, José Pereira reabriu o estabelecimento com o mesmo nome na Rua Alberto Pasqualini, na antiga Rua 24 Horas, também no Centro. Depois, o estabelecimento passou por outros dois casais de proprietários: Alexandre e Sílvia Brasil e Rafael Bordin e Luciane Cassel.

O Café Cristal encerrou suas atividades e uma longeva história em sua última sede, na Rua Floriano Peixoto, também no Centro de Santa Maria, em 7 de de outubro de 2023, cerca de dois anos depois de sua mudança da Paqualine. Estima-se que o Café Cristal durou 90 anos, boa parte dessa história sob o comando de José Pereira e sua esposa, Cleusa Terezinha Sacol Pereira.

Um depoimento do autor da reportagem (José Mauro Batista)

“Grande seu José. Triste com a sua partida. Ainda esses dias estava lembrando dele. Camarada, gentil, inteligente, culto, seu José gostava muito de conversar comigo quando eu frequentava o Cristal, esta, aliás, uma característica dele. Uma maneira como tratava clientes.

A última vez que o vi ele estava a passeio no Cristal, tomamos uma cervejinha e conversamos. Já era na gestão do Rafael Bordin e da Lu Cassel. Às vezes ele aparecia por lá, num sábado de manhã, para almoçar e bater um papo.

Mas duas histórias marcam minha relação com o Seu José, conhecido como Português. A primeira foi em maio de 1986, quando eu e mais dois amigos viajamos de São Luiz Gonzaga a Santa Maria para uma Tertúlia Musical Nativista.

Descemos na Rodoviária antiga e seguimos em direção ao Centro. Chegamos num bar no Calçadão. Era o Cristal. E um senhor alto estava no caixa. Era o seu José.

Convenci seu José a aceitar um cheque meu. Primeiramente, ele hesitou um pouco porque eu era de outra cidade, mas acabou aceitando.

Depois, ainda naquele ano, já morando em Santa Maria, fui algumas vezes no Cristal. Entre indas e vindas, deixei São Luiz Gonzaga e me fixei em Santa Maria, em março de 1987.

Continuei indo no Cristal. Até que numa noite de inverno de 1988, eu e outros amigos aqui de Santa Maria chegamos no Cristal. Bebemos a tradicional caipirinha até que um garçom, chamado Ligeirinho, e outros começaram a recolher mesas e cadeiras, levando para o fundo de uma peça.

Não era a disposição corriqueira das mesas e cadeiras quando o bar fechava. Perguntamos. E, para nossa surpresa e tristeza, o garçom nos informou que o Cristal estava fechando. Que aquela era a última noite.

Um fotógrafo chamado Chico, que estava com um violeiro chamado César Prieb, registrou o momento em fotos. Ficamos de pegar as fotos e nunca mais pegamos.

Anos depois, seu José já estava estabelecido com o Cristal na Pasqualine. Comentei com ele. Ele não lembrava a data exata, mas falou que tinha as fotos. Pedi para vê-las.

Passou-se mais uns anos até que um dia seu José trouxe as fotos. Não eram as mesmas da noite em que o Cristal fechou. Pelo menos dos últimos clientes, em que eu estava.

Tenho certeza de que fomos os últimos frequentadores do Cristal do Calçadão. Continuei frequentando por anos o Cristal da Pasqualine sob o comando do seu José até que ele passou o bastão para o Brasil. Tenho que registrar que sua esposa, dona Cleusa, pegava junto e era presença constante no estabelecimento.

Depois de anos à frente do Café Cristal, teve a merecida aposentadoria. Seu José Pereira, com seu jeito sincero e seu sotaque português, com certeza, permanecerá na memória afetiva de muitos santa-marienses.

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