Paralelo 29

Entre a Paz e o Pódio: Quando a geopolítica invade os Jogos Olímpicos e revela as assimetrias do sistema internacional

Foto: Tânia Rêgo, Agência Brasil
José Renato Ferraz da Silveira – Professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).
Samara Maciel Gonzales – Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

Desde a Antiguidade, as Olimpíadas carregam um ideal que ultrapassa o esporte. Mais do que competições atléticas, os Jogos nasceram como um momento de suspensão das rivalidades políticas e militares entre os povos.

Na Grécia Antiga, cidades-estado frequentemente em guerra declaravam a ekecheiria, a Trégua Olímpica, que garantia a circulação segura de atletas e espectadores até Olímpia.

Tratava-se de uma pausa rara em um mundo marcado por conflitos constantes — um acordo mínimo de convivência, ainda que temporário.

Séculos depois, com a recriação dos Jogos no final do século XIX, esse espírito foi resgatado como um dos pilares simbólicos do movimento olímpico.

A proposta era clara: mais do que premiar os melhores atletas, as Olimpíadas deveriam promover amizade entre os povos, respeito mútuo e convivência pacífica entre nações.

No imaginário olímpico, o esporte surgia como uma linguagem universal, capaz de transcender diferenças políticas, ideológicas e culturais. Mas a história demonstraria que essa separação entre esporte e política nunca passou de uma aspiração — e não de uma realidade. .

A Trégua Olímpica: norma ou símbolo?

A Trégua Olímpica foi formalmente retomada pela Organização das Nações Unidas na década de 1990. Desde então, resoluções são aprovadas antes de cada edição dos Jogos, incentivando os países a suspender conflitos durante o período olímpico — geralmente da abertura até o encerramento dos Jogos Paralímpicos.

A iniciativa carrega um forte valor simbólico: reafirma o esporte como instrumento de diplomacia e promoção da paz. No entanto, sua natureza é essencialmente normativa, e não coercitiva. Não há sanções automáticas, nem mecanismos de enforcement.

Na prática, como frequentemente ocorre no sistema internacional, o cumprimento da norma depende menos de sua existência formal e mais da disposição — e da posição — dos Estados.

O episódio mais emblemático dessa tensão ocorreu em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia pouco após os Jogos de Inverno de Pequim.

A ação foi interpretada como uma violação direta da Trégua Olímpica e resultou em sanções esportivas significativas: exclusão de competições e proibição do uso da bandeira nacional.

A mensagem parecia clara: guerra e olimpismo são incompatíveis. Mas essa clareza não resistiria por muito tempo.

Quando a regra encontra o poder

Em 2026, uma nova controvérsia expôs os limites dessa lógica. Durante o período da Trégua Olímpica, após os Jogos de Inverno de Milano-Cortina e antes dos Jogos Paralímpicos, os Estados Unidos realizaram ações militares contra o Irã.

A comparação foi inevitável. Se a violação do mesmo princípio levou à punição severa de um país, por que não produziu consequências equivalentes para outro? A resposta não está no campo esportivo, mas na estrutura do sistema internacional.

Os Estados Unidos ocupam uma posição central na ordem global: concentram poder econômico, militar, político e simbólico. Exercem influência direta e indireta sobre instituições internacionais, mercados e fluxos de informação.

No ecossistema olímpico, essa centralidade se traduz em patrocínio, audiência, direitos de transmissão e capacidade de moldar agendas.

Diante disso, a aplicação de sanções torna-se menos uma questão normativa e mais um cálculo político. Não se trata de ausência de regras — mas de sua aplicação seletiva.

O Comitê Olímpico Internacional e a política da neutralidade

O Comitê Olímpico Internacional (COI) se apresenta como uma entidade neutra, dedicada exclusivamente à promoção do esporte e de seus valores.

No entanto, como qualquer instituição internacional, não opera em um vácuo. Suas decisões são atravessadas por pressões diplomáticas, interesses econômicos e pela própria distribuição de poder no sistema internacional.

O banimento da Rússia, nesse contexto, pode ser compreendido em dois níveis. De um lado, como uma resposta coerente com os princípios normativos do movimento olímpico. De outro, como uma decisão funcional à manutenção de uma determinada ordem internacional.

Ao punir um ator já politicamente isolado, o sistema reafirma normas sem necessariamente confrontar os centros de poder que sustentam sua própria estrutura.

O resultado é uma assimetria evidente: enquanto alguns países são transformados em exemplos morais, outros transitam por violações semelhantes com custos significativamente menores.

Quem pode competir — e quem define as regras

Essa assimetria não se limita às instituições; ela se materializa na experiência dos próprios atletas. Atletas russos, por exemplo, foram impedidos de competir sob sua bandeira, tiveram sua identidade nacional diluída e passaram a atuar como representantes neutros — uma condição que, na prática, os dissocia simbolicamente de seu país.

Enquanto isso, atletas de potências centrais continuam competindo sob suas bandeiras, celebrando vitórias associadas a valores universais como paz, respeito e união — mesmo quando seus Estados estão envolvidos em ações que tensionam diretamente esses princípios.

O paradoxo é evidente. O pódio, que deveria ser um espaço de igualdade simbólica, torna-se também um palco de legitimação seletiva.

A patinação artística e o fim de uma hegemonia

No plano esportivo, os Jogos de Inverno recentes também produziram mudanças relevantes. A vitória da norte-americana Alysa Liu na patinação artística feminina encerrou um jejum de mais de duas décadas sem um título dos Estados Unidos na modalidade.

A conquista foi celebrada como um marco histórico. No entanto, ocorreu em um contexto particular: a ausência de atletas russas, tradicionalmente dominantes na modalidade, em função das sanções impostas após a guerra na Ucrânia.

Embora o resultado seja legítimo do ponto de vista competitivo, ele também ilustra como decisões políticas podem reconfigurar o campo esportivo.

Em modalidades de alto prestígio, vitórias nacionais frequentemente extrapolam o esporte, convertendo-se em símbolos de prestígio internacional e projeção de poder.

Nesse sentido, a arena esportiva ecoa dinâmicas mais amplas do sistema internacional — inclusive rivalidades que remontam à Guerra Fria.

O espetáculo da igualdade — e a realidade da hierarquia

As Olimpíadas continuam sendo um dos mais poderosos rituais simbólicos da contemporaneidade. Durante algumas semanas, o mundo encena a possibilidade de convivência entre nações sob regras comuns.

Mas essa encenação convive com uma realidade estrutural distinta. A Trégua Olímpica, longe de ser um mecanismo efetivo de contenção de conflitos, funciona como um marcador normativo cuja aplicação depende da posição relativa dos Estados.

A diferença não está na regra, mas em quem a viola. O esporte, nesse contexto, não suspende a política. Ele a reorganiza em uma linguagem mais palatável — feita de medalhas, cerimônias e narrativas de superação.

Conclusão — o verdadeiro jogo

No fim, o que está em jogo nas Olimpíadas vai além do desempenho atlético. Os Jogos prometem igualdade de condições dentro das arenas.

Fora delas, porém, as regras seguem outra lógica — uma lógica na qual poder, influência e posição estrutural continuam determinando quem será punido, quem será tolerado e quem sequer terá a oportunidade de competir plenamente.

Essa é a grande tensão do olimpismo contemporâneo. Um evento criado para simbolizar união entre os povos acaba revelando, com notável clareza, as hierarquias que organizam o sistema internacional. E talvez seja justamente aí que reside sua verdade mais incômoda: não é apenas sobre quem ganha medalhas — é sobre quem pode continuar jogando, mesmo depois de ter quebrado as regras.

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