LUDWIG LARRÉ
Jornalista
Meu pai estava preso quando vim ao mundo no inverno de 1964.
Foram três prisões a partir de abril daquele ano, com períodos de 15 a 90 dias sob a tutela dos militares.
A acusação era de subversão. O pai sempre fora petebista, getulista, janguista – de quem era íntimo.
Na época, era secretário de imprensa do prefeito Paulo Lauda, empossado em janeiro daquele ano com votação consagradora no pleito anterior.
Foi todo mundo em cana: prefeito, vice – que era o Seu Adelmo Simas Genro –, vários secretários de município e vereadores.Nessa turma estavam, entre outros, os irmãos Abdo e Jorge Mottecy.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: “Passos do Vislumbre”
Foram todos absolvidos da acusação de subversão, ainda em primeira instância, na Justiça Militar.
Os mandatos conquistados pelo voto popular, no entanto, foram cassados. O Seu J. Bicca Larré não tinha mandato.
Perdeu a liberdade por uns meses e uma biblioteca que foi preventivamente queimada quando os coturnos pisaram mais forte.
Durante os períodos em que foi hóspede no “Sétimo”, na “Sexta Brigada” e no “29”, apesar da pressão psicológica – que não deixa de ser tortura –, o velho relatava ter sido tratado com dignidade pelos militares. Sobretudo pelos de mais alta patente.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Dummheit uber alles
Imagino o quão digno possa ter sido estar preso na terra natal do Cel. Brilhante, tendo quatro filhos pequenos (meus irmãos do primeiro casamento do pai) e a segunda esposa (minha mãe) por parir (a mim).
Sobrevivemos! E o pai nunca guardou mágoas a ponto de generalizar repulsa aos milicos.
Como em qualquer setor público ou privado, sempre há aqueles espiritual e intelectualmente limitados, de quem nada de bom se pode esperar. Ideologicamente, idem.
Apesar do trauma, meu velho sempre cultivou boas amizades com militares de elevada cultura e visão humanista.
Uma das lições que o velho me deixou pelo exemplo é não prejulgar pessoas pela cor da pele ou pela roupa, no caso, a farda.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Teteza
Ao longo da vida, conheci milicos que não valiam o que o gato enterra, assim como interagi com militares de caráter, conduta e ideais irrepreensíveis. O mesmo vale, por exemplo, para políticos e sindicalistas.
Talvez por não guardar ranço, imagino uma realidade alternativa na qual os militares têm protagonismo na vida da Nação.
Essa realidade paralela, inclusive, orbita um conceito de Nação inexistente na realidade brasileira cotidiana.
Pois, senhoras e senhores, na tal realidade alternativa, as unidades militares estrategicamente distribuídas nos mais distantes confins do território nacional destinam instalações e efetivos ociosos à promoção do mais verdadeiro sentido de civismo.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: O carcinoma no tecido social
Cada quartel abriga uma escola; cada rancho é uma cozinha comunitária a preparar e distribuir alimentos – bancados por fundos públicos e privados – aos famintos.
As estruturas e profissionais dos quadros de saúde do Exército, Marinha e Aeronáutica mantêm atendimento à comunidade.
Cada regimento acolhe e promove ações de cidadania para a população vulnerável de suas imediações.
Cada recruta recebe formação profissional qualificada, e essa formação é disponibilizada ao entorno social da caserna.
Talvez a nossa realidade paralela não esteja assim tão distante se observarmos o desempenho dos batalhões de engenharia, por exemplo.
Paralelo 29 tem novo cronista: Ludwig Larré
Temos know-how, competência, tecnologia e fartos exemplos de eficácia na execução de obras estruturais por unidades militares.
Melhor que muita empreiteira, essas sim nocivas aos cofres públicos e à saúde da democracia na História recente do país.
E os saudosos batalhões ferroviários? Ah, a ferrovia! Outro trilho da minha realidade alternativa para uma futura viagem.
Agora, vejamos se realmente estamos tão distantes dessa realidade paralela.
Não é absolutamente plausível imaginar uma atuação permanente e efetiva do Ministério da Defesa no patrulhamento de nossas fronteiras, na repressão contundente ao narcotráfico e ao contrabando de armas, no combate aos crimes ambientais, na proteção das comunidades indígenas e ribeirinhas?
MARCOS RIBEIRO – Opinião: A polêmica nota da Cacism
A Amazônia da minha realidade alternativa é o maior bem nacional (e mundial) a ser guarnecido pelos militares.
A minha utopia nesse aspecto é um pouco mais ousada: definiremos um perímetro não apenas de preservação, mas de recuperação ambiental e ampliação de cobertura florestal.
Ali dentro, só índios, ribeirinhos, militares, cientistas e a presença dos serviços de Estado voltados à cidadania, à preservação do meio-ambiente e à garantia de atividades sustentáveis.
Operações de guerra e barreiras militares permanentes, não apenas reprimindo, mas recuperando os estragos das ações de madeireiros, grileiros, pecuaristas predatórios e garimpeiros.
Na minha realidade paralela não existe atividade de extração mineral cujo lucro cubra os prejuízos à Nação e ao planeta.
JULIO PUJOL – Opinião: Notícias Falsas
As Forças Armadas da minha realidade alternativa se chamam Forças de Paz do Brasil.
São referência internacional e têm tecnologia de ponta, atraindo investimentos de outras grandes nações em favor da defesa do patrimônio da humanidade constituído pela Amazônia Verde e pela Amazônia Azul.
Nessa realidade alternativa, que em nada parece coisa de outro mundo, as embarcações militares patrulham rios, igapós e igarapés.
Aeronaves controlam o espaço aéreo e satélites esquadrinham cada hectare de floresta. Orgulhosos Rambos de fuzis ao peito e rostos pintados, gritam “SELVA!”.
GILSON PIBER – Opinião: Discursos atrasados
E, acima de tudo, cumprem a missão constitucional de organismo de Estado.
Tenho outras realidades paralelas em mente. Ao colocá-las “no papel” e propor o debate, não me parecem assim tão distantes e utópicas.
Sou, todavia, apenas um cabeça-de-papel, sonhando um mundo onde quem não marchar direito não vai preso pro quartel.

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