Bonecas de pano e de pele
Ela ninava as bonecas e as enfileirava. Uma a uma. As bonecas manchadas de sangue. Sangue sólido de bonecas líquidas.
Estreita a passagem. Sem murmúrios. Bocas tapadas. Mãos impuras. As bonecas em fila. Sofriam de outrora.
As bonecas carregavam miudezas nos pés. Barbies. Bonecas moças. Desfeitas de véus, mas uma das bonecas ficara ao relento.
As outras, bonecas moças, vestidas e lavadas. Do sangue de si. E aquela boneca ainda criança.
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Vestida de sangue esperava ao lado. Nem todas as águas do mundo dariam conta de lavá-la.
Então, a vida regou o canto das bonecas. Elas não sabiam coser. Mas, vestidas de tempo, destraçalhavam um velho blues.
De dor. E dormiam a não lembrar. Nos esquecedouros da agonia. Um dia, a mãe viu a menina perfilar os brinquedos.
Ficou meio que ao longe a olhar a forma de brincar da menina. Viu-a cantar. Tristezas atravessadas na garganta das bonecas.
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E perguntou-lhe: “Quem cuida das bonecas?” A menina respondeu que era ela. Vestia e as cobria do frio do inverno, beijava-lhes a face ardida, punha-as dormir.
Até que, enfim, chegara a vez da boneca-menina. Ferida de sangue. Do que nunca estanca. A mãe pergunta: “E essa boneca?”
E enquanto a menina esboçava uma reposta na tristeza da boca que ocultava verdades, a mãe a pôs no colo.
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Chamou o pai. E juntos choraram os três a dor da alma da menina. Que nenhum rio lavaria. Que ninguém poderia arrancar.
Juntos choraram para curar a dor de dentro da menina. Para lavar a alma de amor. Havia um vento lá fora. E os três ali. Matando os chifres do tempo.
Enfrenando os gritos para que repousassem na alma da boneca-menina. Os três ali. Tornava o vento lá fora.
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Mas outro tempo haveria de chegar. As feridas que não cicatrizam precisam ser, ao menos, lavadas, para que a dor não apodreça as almas.
A mãe da menina adormeceu a menina de dentro. Cantarolou velhas fórmulas de acordar.
Com fibras de corda e cabelo. Tecida de pele tenra. Para nunca mais dormir. Naquele tempo.

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