Paralelo 29

JOÃO EICHBAUM : Crônica de uma cidade com duas histórias

Prédio da antiga Gare da Viação em Santa Maria/Foto: José Mauro Batista, Paralelo 29

O APITO QUE PEDIA SOCORRO

JOÃO EICHBAUM

O único dia em que esperei por você, e você não veio, soou como despedida sem fim.

Naquele tempo, só um adeus balbuciado na gare poderia ser guardado na alma como a última palavra se, horas depois, fossem ouvidos os silvos plangentes da locomotiva, pedindo socorro.

Ah, minha Santa Maria, aninhada ao pé de montanhas que  lhe negam o horizonte de um lado, mas deixam um vão imenso, no outro, com vistas para o infinito!

Nos meus miseráveis surtos de poesia, eu a chamava minha princesa: a princesa vergastada pelo vento norte, que despencava serra abaixo, amolecia a gente com um torpor de ressaca, escravizava a dança das árvores à sua coreografia desgovernada, botava o pó em rodopios demoníacos e ainda levantava, sem pudor, a saia plissada das meninas.

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No inverno as neblinas a proibiam de ver o céu. E a sufocava uma modorra escaldante nas tardes de verão.

Mas, era despertada sempre pelos sinos álacres de locomotivas que chegavam, e adormecia ao silvo triste do trem noturno que partia.

Ali, onde eu esperava por você, não era exatamente um lugar para despedidas tristes, regadas a lágrimas, com lenços abanando.

Não. As despedidas tristes só aconteciam na gare da Viação Férrea, porque nunca se sabia o que reservava o destino para cada viagem.

Soando em tom plangente,  os sucessivos silvos da locomotiva do socorro pareciam vir do fim do mundo.

Locomotiva de Maria Fumaça, na Avenida Presidente Vargas, em Santa Maria: símbolo da ferrovia na cidade/Foto: José Mauro Batista, Paralelo 29

Era o único som que ninguém gostava de ouvir, porque tirava o sono das famílias ferroviárias e plantava angústia na cidade.

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Tanto podia anunciar morte ou dor na ferrovia, como um simples descarrilhamento sem consequências.

Por isso, nunca havia, na gare, adeus sem aperto no coração, sem lágrimas escondidas ou derramadas, sem mãos ou lenços abanando.

Eu esperava você naquele prédio desbotado, sombrio, onde apenas uma parede separava a estação rodoviária do restaurante Vera Cruz, na Avenida, quase defronte à catedral.

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Dali saíam os ônibus para a “grande Santa Maria”, apenas com ligeiros adeusinhos.

Você não veio. Mas, seu adeus sem palavras não podia ser terminante: ele não teria a resposta dos apitos, pedindo socorro.

Não morri, mas fui condenado a padecer em vida o inferno de sua ausência.

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