Paralelo 29

GILSON PIBER: A elite do preconceito

Elite brasileira tem um ranço enorme em ver os menos favorecidos com uma vida digna/Foto: José Mauro Batista, Paralelo 29

GILSON PIBER

Jornalista

Não é de hoje que a elite brasileira não gosta de ver pobres e trabalhadores humildes nos bancos universitários.

Esta elite gosta do pobre serviçal, subserviente aos seus interesses e bajulador das suas benesses.

Não deveria ser assim, mas há um ranço enorme em ver os menos favorecidos com uma vida digna, emprego formal, casa própria, comida na mesa, acesso à educação e saúde, e outras condições mínimas para uma sociedade menos desigual.

Para o sociólogo, professor e escritor Jessé de Souza, o problema principal do Brasil não é a corrupção no Estado, mas a desigualdade, herança direta da escravidão.

Segundo ele, “mais de 50% dos brasileiros exercem atividades semiqualificadas. E essas classes populares são odiadas e desprezadas, como os escravos eram”. 

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Jessé vai além: “O Brasil é um país doente, patologicamente doente pelo ódio de classe. Isso é o mais característico do Brasil: o ódio patológico ao pobre.

É a doença que nós temos. A gente nunca assumiu a autocrítica de que somos filhos da escravidão, com todas as doenças que a escravidão traz: a desigualdade, a humilhação, o prazer sádico na humilhação diante dos mais frágeis, o esquecimento e o abandono da maior parte da população. Esse é o grande problema brasileiro. O resto é bobagem.”

Recentemente, o ministro da Economia, Paulo Guedes, criticou o acesso dos “filhos de porteiros” ao ensino superior.

Comentou que o Fies, programa federal para estudantes de baixa renda financiarem mensalidades do ensino superior, é “bolsa para todo mundo” e “um desastre”. 

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Tais declarações atestam o preconceito do ministro, uma pessoa que deveria dar exemplo e lutar pela superação das desigualdades.

Que mal há em um filho de porteiro ingressar no ensino superior, estudar e se formar? Qual o problema de filhos da classe trabalhadora fazerem curso superior? É só filho de rico que pode virar doutor?

O mais triste, também, é ver camadas da classe média agindo com o mesmo preconceito praticado pela elite.

Jessé de Souza destaca: “A classe média é a classe do privilégio. Qual é o privilégio da classe média? O capitalismo tem dois grandes capitais. O dinheiro, obviamente, o capital econômico. E o conhecimento.

Não tem nada no capitalismo que se faça sem conhecimento, tão importante como o dinheiro. A produtividade do capitalismo depende do conhecimento, da ciência, da tecnologia. Para exercer qualquer função no Estado ou no mercado, você precisa ter conhecimento incorporado.

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O que explicita a gênese da desigualdade é a reprodução de privilégios, desde a família. A reprodução de privilégios que é feita na classe alta, ou seja, na elite de proprietários, é a reprodução da sua propriedade por amizades, casamentos e relações pessoais.

Na classe média, você reproduz outro privilégio, que é o conhecimento valorizado, mais invisível que o dinheiro, o qual exige disciplina, capacidade de concentração e pensamento abstrato, que são pré-condições recebidas pelo indivíduo da classe média.

 É o que as classes populares não têm. Para ter o conhecimento valorizado, você precisa também que seu pai tenha algum dinheiro para pagar um colégio bom e para você não precisar trabalhar. Entre nós, as classes populares começam a trabalhar com 12 ou 13 anos.”

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 E muita gente quer manter o atual status quo no Brasil.

Precisamos de um Brasil mais justo, mais plural e em que a ciência e a tecnologia sejam levadas a sério. Em que a educação e a saúde sejam prioridades efetivas, não só no discurso.

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