LUDWIG LARRÉ
Jornalista
Com a referência e a reverência ao magnífico ator e humorista Paulo Gustavo, esboço algo de leveza para este Dia das Mães.
Como minha progenitora já se foi – e ela sim, lembrava a eloquência e a espontaneidade da Dona Hermínia –, rendo homenagens e carinho a todas as mães na pessoa da minha sogra.
Dona Carmen, ou melhor, a Véia, como é carinhosamente tratada pelos filhos, netos, bisnetos e amigos mais próximos, completa 93 aninhos daqui a dois meses. Uma guria!
Para ser justo, preciso registrar que, antes mesmo de me tornar um bom genro, tive três ou quatro sogras não menos queridas, pelas quais guardo imenso afeto.
O fato é que minha sogra, a Véia, é uma peça rara. Lúcida, saudável e alegre, diariamente nos brinda com valiosas lições de vida, muito mais pela atitude do que pelo discurso.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Estátua viva
Resiliência, suavidade e bom humor são alguns de seus atributos mais marcantes. A resiliência da menina cruzaltense, que enfrentou privações quando criança, durante a Segunda Guerra Mundial.
Ainda que a milhares de quilômetros do front, sobretudo os mais humildes, como era o caso da família da menina Carmen, sofreram com o desabastecimento causado pelo esforço de guerra.
Até a fome, naquela primeira metade dos anos 1940, rondou a casa da família, que só não enfrentou o pior graças à solidariedade dos vizinhos.
Aos 13 anos, Carmen começou a trabalhar como babá. Aos 14, idade mínima exigida na época, tornou-se operária da Cruz Alta – Industrial de Fósforos, colando rótulos nas caixinhas da marca Borboleta.
Por essa época, começou a costurar para reforçar o orçamento. Tornou-se “costureira de mão cheia”. Anos depois, casou, teve sete filhos e viu todos se formarem.
LARRÉ – Crônica: O Dia da Terra
No período em que o marido sofreu um grave acidente de carro, ficando temporariamente impossibilitado de trabalhar, foi a costura da Véia que garantiu o sustento da família.
Por vezes, Dona Carmen abdicava da própria refeição para que não faltasse aos filhos. Com trabalho e dedicação, a vida foi melhorando.
No início dos anos 1980, ela e o “Seu Urtigão”, já aposentados, mudaram-se de Cruz Alta para Porto Alegre, onde já estudavam três dos filhos mais velhos.
Foi nessa época que conheci minha esposa e freqüentei pela primeira vez a casa da família. Passaram-se 30 anos, entretanto, até que eu me tornasse digno de ser genro da Véia.
O filho, as seis filhas, netas e netos dizem que a NASA deveria estudar a longevidade, a saúde e a disposição da Véia.
Em um de seus bordões mais frequentes, ela diz que não é humana. “Eu sou um ET”, afirma com uma boa risada.
LARRÉ – Crônica: Um gato vadio, o mago e Raul Seixas
Para quem se dispuser a estudá-la, adianto que o caminho passa por não guardar mágoas nem ressentimentos.
Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, ninguém jamais viu a Véia se queixar de coisa alguma. Ela vive – e como vive! – de bem com a vida.
A Véia morava no apartamento dela e, até iniciar a pandemia, mantinha o hábito de avó nômade, alternando temporadas em visitas aos filhos, netos e bisnetos.
Cada vez que ela excursionava pelo Mato Grosso ou Santa Catarina, eu ficava sentindo sua falta. Acho que até um pouco de ciúme do cunhado e das cunhadas.
No início da pandemia, por decisão da família e com a minha torcida, a Véia veio morar conosco, já que estamos ambos em regime de home office, e ela, apesar de esbanjar saúde, precisa de companhia.
Pouco antes do confinamento, a Véia nonagenária passou mais de dois meses na Austrália, visitando uma das netas radicada na Oceania.
Voltou encantada com os coalas e cangurus com os quais interagiu. Quando perguntei se chegou a nadar com tubarões ou surfar em Bells Beach, disse que faltou parceria para os esportes radicais. “Ninguém me convidou”, lamentou ela.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Comentarista do BBB
Longe dos coalas e cangurus, a Véia acaricia e é acariciada por nossos cinco cães e três gatos.
O novato, um gatinho preto que recolhemos abandonado aqui na rua, foi ela que deu o nome: Pelé.
Eu acrescentei os prenomes. Ficou “Everédson Ray Pelé”. O bichano dorme com a Véia, e ela passa o dia às voltas com o filhote endiabrado.
A companhia da Véia e sua magnífica presença de espírito enchem a casa de alegria Não existe tempo ruim com a Dona Carmen!
Se ela abre a boca, é para contar uma história engraçada, fazer uma piada ou nos levar às gargalhadas com um de seus originais e infalíveis bordões.
Companheira sempre disposta para um licor, um shot de Bourbon ou a cervejinha do happy hour domiciliar, quando secamos a última garrafa, a Véia – para gargalhada geral – solta seu indefectível “Estamos na miséria!”. Que nada, Véia! Vivemos é na riqueza do teu convívio!
A Véia é uma unanimidade de simpatia, seja com minhas filhas ou com os amigos que freqüentam nossa casa.
A primeira coisa que os mais chegados me perguntam é como vai a Véia. A Véia vai bem, rumo aos 100, ao infinito e além, respondo.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: 1964 e algumas realidades alternativas
A única coisa que me preocupa é que tipo de mundo vamos deixar para a Véia. Ela merece um mundo em que não haja genitoras como a do menino Henry, que entregam a integridade e a vida dos filhos em troca de patrocínio para futilidades.
A Dona Carmen merece um mundo em que mães jamais pranteiem o assassinato bárbaro de inocentes massacrados por psicopatas dos videogames e dos fóruns da dark web.
A Véia merece um mundo sem genocidas, no qual milhares de mães tivessem sido poupadas da perda de filhos e filhas ceifados pela pandemia.
E a humanidade, a humanidade precisa do amor, da resiliência e do bom humor da Véia! Vida longa, próspera e feliz para todas as mães!

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