FABRÍCIO SILVEIRA
Jornalista e professor universitário
Sonhei que havia me transformado num excelente professor de sociologia. Eu morava numa pequena cidade, muito pobre e afastada, no interior profundo do Brasil.
Tudo era bem estereotipado: a igreja e a prefeitura, os jardins e o coreto no coração da praça municipal.
As famílias sentavam na calçada, em frente às casas, todo final de tarde. Eu interagia, vibrante, com a população. Era reconhecido. Todos me cumprimentavam. Eram gentis e atenciosos comigo.
Aos poucos, reparei que algo estava errado: ao invés de manter relações reais e descompromissadas, eu dava aulas.
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O eterno retorno do fascismo (IV)
Era tudo o que eu fazia: dar aulas. Juntava-me aos moradores e lhes falava sobre “vínculos primários” e “vínculos secundários”, sobre as diferenças conceituais entre “sociedade” e “comunidade”.
Entrava nas residências particulares, diante de pais e filhos, tios, sobrinhos e netos, e palestrava sobre a constituição e a crise do núcleo familiar.
As pessoas iam ao mercado e lá estava eu, explicando-lhes a natureza das trocas econômicas.
Levantavam-se para trabalhar, cedo da manhã, e eu lhes recebia com explanações sobre interesses de classe, sindicalismo revolucionário e contenção de gastos públicos.
Aos domingos, antes da missa, eu falaria sobre a religião como sistema, as origens remotas do catolicismo e os ritos de passagem.
Certa vez, ocorreu um show de rock na cidade. Não tive dúvidas: convoquei a população inteira.
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O avesso do bom senso
A oportunidade seria fantástica: discutiríamos a estética e os mitos rockeiros, a ética pulsional das tribos urbanas, o marketing e a fabricação de uma celebridade moderna. O mercado fonográfico seria duramente criticado.
O espetáculo começou no horário previsto. Tudo transcorria como esperado: uma apresentação exagerada e barulhenta, com muito gelo seco, entre clichês e surtos de emoção.
Minhas explicações vinham precisas e reveladoras. No ato. Impecáveis. Não me escapava nada. Tudo era dito e esclarecido.
Lá pelas tantas, quase ao final do concerto – não sei bem como nem por quê! –, irrompeu uma pancadaria enorme.
Um dos piores tumultos que presenciei na vida. Todos se viram envolvidos. Quem não se debatia se agachava.
FABRÍCIO SILVEIRA – OPINIÃO: O eterno retorno do fascismo (III)
Aqueles que não corressem seriam atingidos. Voavam copos, garrafas e cadeiras quebradas. Gritos e xingamentos para todo lado. Cacos de vidro se esparramando pelo chão.
Antes de tombar, com um forte soco no queixo, me dei conta: lembrei que a aula sobre as raízes sociais da violência fora transferida para a próxima semana. Com falta de ar, sobressaltado – temendo estar com dois ou três dentes a menos –, de pronto, me despertei.

No Comment! Be the first one.