JOÃO EICHBAUM
Advogado e escritor
Era impossível juntar os dois sonhos daquela época boa e inocente: ser maquinista e casar com você.
Não era tão fácil ser maquinista. Não bastava chegar na estação e pedir o emprego. Não se aprendia em cursos ou escolas os macetes daquele ofício, mas com o fogo. O candidato tinha que aguentar muito gás carbônico até chegar lá. A máquina era movida a vapor, e o vapor pedia fogo.
A parte traseira da locomotiva, chamada “tender”, armazenava o carvão necessário para o fogo. E não era foguinho de churrasqueira.
CRÔNICA: JOÃO EICHBAUM: O sonho dos meninos
Era de um fogo de incêndio que a máquina precisava para se movimentar, e o fazia, engolindo enormes pedras de carvão.
A primeira missão do pretendente à glória de maquinista consistia na inglória tarefa de recolher, com uma pá, o carvão do “tender”, para alimentar o fogo.
A pá comprida e mais aquelas pedras de carvão, maiores do que o punho de quem os recolhia, cobravam torrentes de energia. Esse serviço cabia ao ajudante de foguista, o primeiro degrau da carreira de maquinista.
Fizesse chuva ou sol, frio ou calor, o pobre ajudante não tinha proteção alguma, quando a caldeira pedia mais carvão: a parte coberta da locomotiva não alcançava o tender.
Nos intervalos desse exercício, ele ia aprendendo a função do foguista, que era a de manter a temperatura no grau apto a produzir energia térmica.
Depois de três a quatro anos, nessa manobra hercúlea de enfiar a pá no monte de carvão e empiná-lo nas línguas de fogo da caldeira, podia o ajudante aspirar à promoção para foguista.
EICHBAUM: O alto falante do ceguinho
Sem um mínimo de sete anos de convívio com as exigências daquele monstro de ferro, era impossível chegar a maquinista. As mãos, então, já teriam acumulado muitos calos em sua textura de lixa.
O rosto, tisnado, exposto entre o calor do fogo e o frio da temperatura ambiente, estaria tomado de rugas. Era o preço pago para alcançar um sonho. Mas, alto demais para esquecer você.

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