SABRINA SIQUEIRA
Jornalista e podcaster do Literatura Oral
A Mafalda chegou na família com 34 dias de vida. Tarde para que a salvássemos da prática equivocada de cortar o rabo dos filhotes, mas a partir da nossa adoção esteve protegida e amada por quase 14 anos.
Nessa época, sonhava que mamava, e enquanto sonhava fazia barulhinhos com a boca e movimentos com as patas dianteiras, como para apertar e receber mais leite da mamãe cachorro.
O nome vem da personagem mais famosa do jornalista e cartunista Quino, e ela fez por merecer: cresceu cheia de personalidade, inteligente, curiosa e contestadora, protestando com latidos a cada saída minha ou da minha mãe, suas humanas de estimação.
SABRINA SIQUEIRA: Dois Brasis de Caminha
E não é que ficou parecida com o cartoon? Na última terça-feira, Mafalda descansou da tosse e da falta de ar que a incomodavam há meses, decorrentes de uma cardiopatia. E deixou a casa vazia, perturbada por uma ausência imensa.
Quando um pet querido se vai, morrem junto as dezenas de apelidos fofos que criamos para eles. A Mafalda foi Falda, Faldinha, Pequena Ursa, Fofaldine, Gorda, Felpuda e atendia por todos eles, porque reconhecia no tom de voz que o tratamento era dirigido a ela.
Com a morte da Mafalda morre junto todo um jeito de falar, uma entonação específica e um código linguístico desenvolvido por mim só para ela.

Um registro comunicativo específico que quem olhasse de fora poderia interpretar como monólogo, mas que era o diálogo entre a minha fala e a minha tradução do que aquele par de olhinhos pretos e atentos me devolviam como resposta.
SABRINA SIQUEIRA: Sábado por saúde, pão, gentileza e educação
Com a morte da Mafalda morre uma versão de mim que era bem legal e espontânea, e que não há de se repetir de forma idêntica com outro ser, porque somos uma versão diferente de nós mesmos em cada relacionamento.
O luto nos arranca da normalidade, nos exige imediata ressignificação de quem somos, porque somos uma nova faceta com cada ser com quem estabelecemos conexão.
O sociólogo Eric Landowski, pesquisador da semiótica das práticas cotidianas, propõe o questionamento de até que ponto o sentimento da presença de nós mesmos está intimamente ligado à experiência, de uma forma ou de outra, de uma ausência.
SABRINA SIQUEIRA: A polícia e o cortiço
Pensando a morte como desencadeadora da percepção acerca de nós mesmos, o estudioso postula que ela, bem como outras formas de separação, “nos retira por via de consequência a possibilidade de nos apreendermos a nós mesmos enquanto sujeitos em relação com outrem”.
É como se, acostumados a pensar-nos em complemento com aquele em quem nos conhecemos e com quem nos identificamos, diante de sua ausência houvesse uma contingência em aprender a rever a nós mesmos.
Nas últimas horas, Mafalda precisou do fornecimento de oxigênio em ambiente hospitalar e felizmente pude ficar ao lado dela.
SABRINA SIQUEIRA: Porque a realidade não basta, literatura!
Mesmo poucos segundos sem oxigênio é desesperador e isso me recorda como é desumano o pronunciamento sobre a falta desse insumo, em Manaus, por parte de autoridades que, para se defender durante a CPI da pandemia, disseram que não foi assim tão grave porque o fornecimento ficou interrompido por “apenas” dois dias.
Em meio à pandemia, tem sido necessário para muitas pessoas esse reconstruir-se no sobressalto da ausência repentina de quem nos completava. A Mafalda viveu plenamente sua vida: foi “afofada”, brincou e comeu gostosuras até o último dia.
Mas do fundo da devastação que a perda provoca, não posso deixar de pensar nas centenas de famílias vivendo luto por pessoas que poderiam estar vivas se tivessem recebido vacina a tempo.
SABRINA SIQUEIRA – Opinião: O BBB e a vida
Existem animais de estimação muito mais humanos e melhor entendedores do respeito entre os seres que certos dirigentes. Mafalda foi um deles.
Continua viva nas nossas lembranças, e aos poucos vamos substituindo a saudade por gratidão pelo tempo passado juntas.

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