DIOMAR KONRAD – PUBLICITÁRIO E CRONISTA
Em um mundo que até a pouco tempo valorizava o trabalho para se conseguir alguma coisa na vida, a preguiça acabou sendo relegada a um segundo plano.
O próprio Marx considerava que o que diferencia o ser humano dos outros animais é a sua capacidade de trabalhar, ou seja, de produzir artefatos que incidem diretamente em sua capacidade de subsistência.
Embora alguns animais consigam fazer tarefas com ferramentas que estão à disposição, todavia não são capazes de criar estes artefatos que incidem diretamente no modo de vida de uma população. Ainda bem. Imagina um leopardo com lanças para atingir as presas ou inventando roldanas para levar a caça até o topo da árvore.
Nas novas gerações que não valorizam o trabalho, preferindo conquistar coisas sem grande esforço, o que vale mesmo é o objeto e não o quanto suou para conseguir. Mas isso não é necessariamente uma defesa da preguiça, até porque ser malandro dá trabalho.
Voltando ao tema da preguiça, sou obrigado a discordar do velho Marx quando o assunto é o que move a sociedade, que entendo ser a preguiça.
Todos os grandes inventos da humanidade têm como motivo diminuir a quantidade de trabalho a ser executada, como é o caso do debulhador de milho, invenção que mudou de forma drástica as relações sociais no campo.
A preguiça, que já foi considerada uma doença, talvez até um pecado, ressurge aqui como a grande força motora da sociedade.
E eu, que tinha vergonha de ser preguiçoso, agora entendo que, embora para a maioria das pessoas seja ainda um gen recessivo, no meu caso passou a ser dominante.
Ainda estou à procura, em minha árvore genealógica, do parente que transmitiu essa capacidade de não querer fazer nada ou quase o mínimo para sobreviver.
Não por acaso, identifiquei, em meus estudos, que o ambiente preguiçoso de muitas empresas termina bem na hora em que acaba o expediente.
Trabalhadores que passam o dia bocejando, infelizmente, ainda não são compreendidos em sua dinâmica funcional e aqui falta um pouco de talento do pessoal dos recursos humanos para identificar uma oportunidade de melhoria do sistema.
Minha sugestão, certa vez, foi a de instalar em cada andar um quartinho do cochilo para resolver esta necessidade. Assim, o empregado que estivesse em situação de falência de atenção desmedida, diga-se cochilando, poderia ser levado para este ambiente acolhedor, ficaria lá roncando por uma hora e voltaria todo disposto, somado a uma bela xícara de café.
A chamada “hora perdida” do sono seria recompensada por um aumento de produtividade pós-descanso que nunca seria alcançada por equipes bocejando durante o tempo todo.
Mas, infelizmente, a limitação teórica, conceitual e prática de quem me contratou os fez apenas me conceituar como preguiçoso. Aceitei como elogio e não insisti no assunto.
Retomando a questão da preguiça em si, até nem entendo como pude escrever tanto sobre o assunto, já que a preguiça me impede de ir muito a fundo.
Porém, o tema me empolgou e, refutando minhas raízes mais profundas, acabei escrevendo mais do que pensava no começo. Então, volto a defender a ideia de que a preguiça é o que faz com que a sociedade se desenvolva de modo contínuo.
Foi o pensamento preguiçoso que substituiu a máquina de escrever pelo teclado, pois se errar não preciso fazer de novo. Estou para escrever um ensaio denominado “preguiça no decorrer da história: avanços e retrocessos até chegar ao século XXI”. Pretendo terminar em breve, se a pesquisa não der muito trabalho.

