Paralelo 29

Mesmo sem vítimas, incêndio no Colégio Santa Maria remete à tragédia da boate Kiss

Foto: Nalini Castilhos, Divulgação, Agência Brasil

Quase 13 anos depois da morte de 242 pessoas, estrutura dos bombeiros continua deficiente

JOSÉ MAURO BATISTA – PARALELO 29

Doze anos, 11 meses e 29 dias separam a trágida madrugada de 27 de janeiro de 20213 e a noite de 26 de dezembro de 2025 em Santa Maria.

A primeira foi marcada pela tragédia da boate Kiss, com 242 mortos e 636 feridos no incêndio que consumiu a boate. Na segunda, o incêndio no Colégio Marista Santa Maria, sem vítimas. Em comum nos dois episódios envolvendo fogo, a evidente dificuldade do Corpo de Bombeiros.

Falta de equipamentos nos dois episódios

Na tragédia da Kiss, até mesmo pela extensão do incêndio, os bombeiros enfrentaram imensas dificuldades, principalmente pela falta de equipamentos. Segundo o inquérito da Polícia Civil de Santa Maria, à época, faltaram equipamentos essenciais como máscaras de oxigênio.

Em relato no inquérito, bombeiros informaram que de seis a oito respiradores autônomos de um total de 21 estavam disponíveis para o resgate das vítimas.

O inquérito conduzido pelo então delegado Marcelo Mendes Arigony concluiu que se os bombeiros tivessem contado com os 21 aparelhos “teriam mais condições de entrar no interior da boate tomada pela fumaça e de lá retirarem mais sobreviventes”.

Quase 13 anos depois, no incêndio da escola marista, localizada na mesma região da boate Kiss, os bombeiros voltaram a ter dificuldades para controlar as chamas.

Falta de equipamentos e de pessoal foram os problemas mais evidentes. Sequer escada Magirus (auto-escada mecânica), utilizada para acessar locais altos como o prédio do Colégio Santa Maria, havia à disposição dos bombeiros.

Foi preciso a ajuda de empresas privadas e de reforço de cidades vizinhas para o combate ao fogo. Assim mesmo, as chamas só foram controladas cerca de três horas depois.

Comandante-geral do CBMRS limitou-se a elogiar ação

Em uma entrevista coletiva ocorrida na manhã deste sábado (27/12), o comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS), Julimar Fortes, minimizou a evidente falta de equipamentos da guarnição local.

Ele destacou a atuação dos bombeiros, que “foi rápida e eficiente”, priorizando o isolamento dos prédios vizinhos para evitar que as chamas se alastrassem. O incêndio atingiu principalmente o 4º e o 5º andares do edifício.

Conforme a Rádio Imembuí, o comandante dos bombeiros confirmou que apenas duas cidades do Estado – Porto Alegre e Caxias do Sul – possuem escada Magirus. E prometeu que Santa Maria receberá esse tipo de equipamento, porém não deu nenhuma previsão de quando isso ocorrerá.

Outras autoridades, como o prefeito Rodrigo Decimo (PSD), participaram da entrevista coletiva. No caso da Prefeitura, o prefeito voltou a ressaltar o apoio às equipes de emergência durante o incêndio. Por fim, o delegado de Polícia Regional, Sandro Meinerez, disse que a Polícia Civil instaurou um inquérito para investigar as causas do incêndio.

Autora de livro sobre a Kiss relembra tragédia

Autora do livro “Todo dia a mesma noite: a história não contada da Boate Kiss”, a jornalista mineira Daniela Arbex, fez um post lembrando da tragédia da boate.

Arbex lamentou que Santa Maria tenha enfrentado um novo drama com o colégio marista, que coincidentemente, fica em frente ao prédio da sede da Associação dos Familiares de Vítimas de Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). E, na sequência, fez uma crítica.

“Sem cultura de prevenção o país vai continuar assistindo a novas tragédias. Desta vez niguém ficou ferido, mas a população viveu momentos de angústia e medo até que o fogo fosse controlado”, escreveu a jornalista.

“Até hoje não estamos preparados para tragédias”, desabafa pai de vítima da Kiss

Em um texto publicado em seu perfil no Facebook, o empresário Adherbal Ferreira, pai de Jennefer, 22 anos, que morreu na Kiss, e um dos fundadores da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), lembrou que o Colégio Marista Santa Maria sediou a primeira reunião de pais para a fundação da entidade.

Adherbal também questionou o fato de, quase 13 anos depois da tragédia da kiss, ainda não há uma política de prevenção e faltam equipamentos para os bombeiros.

“Durante todas reuniões foi falado sobre prevenção , mas pouco fomos ouvidos. Até hoje não estamos preparados para tragédias, não evoluiu muita coisa, faltam bombeiros (pessoas ), recursos, brigadistas, escada Magirus. Muitos (estão) na Operação Golfinho, daí falta na cidade”, escreveu o empresário, ressaltado que não se trata de uma crítica “ao pessoal atual”.

Ainda no texto, Adherbal dá uma alfinetada: “Creio que esteja na hora de parar de gastar dinheiro público”.

As manifestações de centenas de internautas nas publicações das redes sociais do Paralelo 29 seguem na mesma direção, com muitas críticas e questionamentos. Muitos deles relataram que o incêndio do Marista machucou uma ferida que ainda sangra nos santa-marienses.

Compartilhe esta postagem

Facebook
WhatsApp
Telegram
Twitter
LinkedIn