Nas duas últimas sessões legislativas, realizadas virtualmente devido à bandeira preta, a Câmara de Vereadores retomou os debates mais ideológicos, como há anos não se via. Afora os debates acalorados, a Casa aprovou requerimentos dando urgência a projetos.
A polarização passa pela questão nacional, sobretudo a crise sanitária da pandemia de Covid-19, governo Bolsonaro, as restrições para conter o coronavírus, a falta de vacinas e a distribuição do Kit Covid.
Cresce pressão contra restrições da bandeira preta
Kit Covid faz parte da polarização
Nesta quinta-feira (4), o vereador Alexandre Vargas (Republicanos), anunciou que vai fazer uma emenda ao projeto do Kit Covid para facilitar o acesso da população a medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina, entre outros.
A recomendação sobre o uso desses medicamentos vem gerando desde o ano passado, quando o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu o uso dessas substâncias como forma de combate ao coronavírus.
Na mesma linha o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, também começou a propagar o chamado tratamento precoce da Covid-19, sobretudo com a cloroquina.
Apesar de estudos científicos apontarem que essas substâncias não têm eficácia comprovada contra o novo coronavírus, até mesmo parte dos médicos passaram a defendê-la.
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Manifesto médico e projeto para distribuir remédios
Na quarta-feira (3), um grupo de mais de 260 médicos de Santa Maria divulgou manifesto defendendo a combinação dessas drogas como forma de combater o avanço da pandemia e o caos no sistema hospitalar.
No mesmo dia, o vereador Tubias Calil (MDB) apresentou projeto de lei prevendo que a prefeitura de Santa Maria distribua o Kit Covid nas unidades municipais.
O projeto deverá entrar em votação na sessão de terça-feira da próxima semana (9), conforme disse Tubias ao Paralelo 29. Ele encaminhou requerimento pedindo a urgência do projeto.
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Cloroquina e cia entram em pauta
Já na sessão desta quinta, o vereador Alexandre Vargas (Republicanos) acrescentou mais um ingrediente na polêmica ao propor uma emenda para que pacientes de médicos particulares também possam ter acesso aos medicamentos.
De acordo com Vargas, um conhecido dele foi a uma unidade municipal em busca de cloroquina, mas como apresentou uma receita particular, não conseguiu a substância.
“A maioria dos médicos não está receitando”, disse Alexandre, referindo-se aos profissionais da rede pública.
Um dos parlamentares informou que para receber esses remédios das farmácias municipais é preciso preencher um cadastro.
Nesse momento, o autor do projeto do Kit Covid interveio: “Aí o cara morre por não ter cadastro de ivermectina”, disso vereador.
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“Menos marketing, mais ações”, diz vereador do PSL
Na sequência da sessão, parlamentares mais definidos ideologicamente expuseram suas posições principalmente sobre fechamento de parte do comércio por conta da bandeira preta.
O representante do PSL, Tony Oliveira, criticou o fato de as lojas estarem fechadas e as pessoas estarem na rua, lotando o Centro.

“As lojas fechadas, mas o parquímetro (estacionamento rotativo) funcionando a mil. Vamos parar de fazer política em cima da pandemia. Menos marketing, mais ações”, disse.
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“O socialismo não deu certo”, diz veterano do Democratas
Já o veterano Manoel Badke (DEM), Maneco, criticou o fechamento, reproduzindo um discurso bastante ideológico, do tempo da guerra fria.
A guerra fria foi uma disputa nos campos geoeconômico, político e ideológico entre as duas maiores potências do mundo após – Estados Unidos e União Soviética – do pós-guerra até o final dos anos 80.
Por conta dessa disputa entre os blocos capitalista (liderado pelos Estados Unidos) e socialista (liderado pela então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS), o mundo viveu momentos de tensão devido à corrida espacial e à corrida armamentista entre os dois polos.
A guerra fria, em tese, se encerrou com a abertura – e depois o fim – da URSS e acordos de redução de armas nucleares.
“O socialismo não deu certo. Se não tivermos empresários, se não tivermos empresas, não tem trabalho”, disparou Maneco.
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“É fácil ser comunista e ir no Mc Donald´s”, diz autor do Kit Covid
Tubias Calil seguiu no clima e questionou o comunismo, modelo econômico e social que a URSS buscava implantar a partir do socialismo.
“É muito fácil ser esquerdista e ter um iPhone no bolso. É muito fácil ser comunista e ir ao Mc Donald´s”, criticou o vereador emedebista, que retornou este ano ao Legislativo.
O contraponto ideológico tem partido da bancada petista, com Marina Callegaro e Ricardo Blattes, ambos estreantes na Casa.
Marina, por exemplo, questionou o uso da cloroquina e outros medicamentos, defendidos no projeto do Kit Covid.
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“Aqui não se trata de esquerda ou direita”, diz vereadora petista
“Não estamos tratando de ser esquerda ou direita. Aqui não se trata de política, mas de organizações”, disse a vereadora do PT referindo-se ao fato de tais medicamentos não terem aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Blattes, em uma de suas intervenções, questionou os colegas bolsonaristas sobre o número de mortes da Covid no Brasil (260.970 nesta quinta (segundo o Ministério da Saúde).
Ele também insistiu no preço da gasolina (que teve o quinto aumento do ano juntamente com o óleo diesel e o gás de cozinha) e citou o desemprego e do “lucro dos grandes”.
“…E o desastre dos pequenos. É isso que está acontecendo no Brasil”, alfinetou Blattes, que tem chamado o governo Bolsonaro de “caquistocrático” (governo dos piores).
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Uma voz de centro na Casa
Já outro estreante, Paulo Ricardo Pedroso, optou por defender a união dos vereadores em torno de causas comuns.
“Que a gente possa se abraçar no fim dessa pandemia, não virtualmente, independentemente de bandeira ideológica”.

Radialista e professor de história, Paulo Ricardo é o primeiro vereador negro titular no Legislativo de Santa Maria e também o primeiro negro a presidir a Casa (ele respondeu interinamente nas férias do titular).
Apesar de ser do PSB, um partido de esquerda no espectro político brasileiro, Paulo Ricardo tem se posicionado mais ao centro.

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