DIOMAR KONRAD
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Uma das facetas do saudosismo são aquelas situações mal resolvidas ou inacabadas que frequentemente voltam em nossa memória, ressurgindo como fantasmas a atormentar nossa já debilitada consciência.
E se tivéssemos agido de forma diferente, sempre estamos a nos perguntar? E se houvesse uma segunda chance para nos retratar?
Sabe aquela fez em que você foi extremamente grosso e estúpido? Ou então teve um desempenho medíocre na cama? Ou não reconheceu alguém na rua ou em alguma solenidade?
Ou bancou o prepotente por achar que sabia demais? Ou não deixou o outro falar e ficou o tempo inteiro fazendo autopropaganda? Ou não reconheceu que não soube fazer aquele trabalho da melhor maneira?
DIOMAR KONRAD – Crônica: A indenização
Ou pior, deixou de reconhecer que estava errado? Ou não se portou bem diante da situação?
A lista é imensa. Afinal, trata-se de uma vida inteira de equívocos, notadamente humanos, é claro.
A técnica do recall consiste em reduzir o número de desafetos que você colecionou durante seu percurso terreno.
Porém, diferente da ação automobilística, o objetivo aqui não é prevenir acidentes futuros, mas consertar erros de trajetória do passado que volta e meia surgem em nossa memória.
A solução é simples: cada vez que você lembrar de alguma “cagada” que fez, anote o nome da pessoa e procure fazer contato para relembrar o que aconteceu.
DIOMAR KONRAD – Crônica: Download
É claro que nem sempre a culpa será sua, pois pode ter havido o fato de que os dois eram típicos “broncos”.
Então, quando falar com a pessoa, relembre o acontecido e, de uma maneira ou outra, confesse que aquilo nunca saiu da sua cabeça, atormentando-lhe o pensamento em uma espécie de ética particular.
Não custa nada reconhecer: eu não devia ter feito aquilo, eu não podia ter feito aquilo, eu gostaria de uma segunda chance para poder reverter a situação, eu lamento profundamente que tenha acontecido e, se fosse hoje, agiria de outra forma.
Um aviso se torna importante para os extremamente saudosistas: com o recall você não irá recuperar amores perdidos, empregos jogados fora e oportunidades desperdiçadas, mas o desafeto pelo menos saberá que você se arrependeu de não ter sido mais ousado, mais impetuoso, menos tímido, menos sincero, menos orgulhoso, mais ambicioso ou mais corajoso.
DIOMAR KONRAD: Crônica: O provedor
E se alguém de quem você se tornou desafeto ligar, pense que ele pode ter lido essa crônica e deseja se reconsiderar contigo.
Sim, porque você também sente algumas mágoas as quais estaria disposto a repensar, mediante algum telefonema, uma mensagem em redes sociais, um encontro inesperado, aquela oportunidade de dizer porque ficou extremamente magoado.
E se você tem contas a acertar, o recall também funciona. Imagina que ficou por anos com mágoa de alguém e este nem se deu por conta, nem da situação nem do seu desafeto.
DIOMAR KONRAD: Crônica – A Abstenção
O seu rancor não foi nem percebido e isto é um total desperdício. Aqui lembro uma frase antiga minha ainda atual: detestar toma tempo. Seria então a oportunidade de dizer que naquela ocasião o outro não agiu bem.
O recall pessoal também apresenta uma pequena diferença em relação ao automobilístico, a qual não posso deixar de citar: haverá pessoas as quais você achará que não vale a pena o procedimento, por serem incorrigíveis. É um ledo engano, mas a decisão é sua.
Uma última questão importante: a ironia, por não ser entendida, tem sido a campeã na criação de desafetos. Não estou me desculpando, mas apenas constatando.

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