DIOMAR KONRAD
Publicitário
No dicionário, o estágio é compreendido como um período de aprendizagens necessário para que a pessoa se qualifique na sua profissão. Na minha modesta concepção, o estagiário é um amante que deseja ser contratado.
Pelo que me lembro, fiz três estágios na minha vida. O primeiro foi em uma agência – a Companhia de Propagandas – quando iniciei os primeiros passos como redator profissional.
O segundo estágio foi no colégio Maneco, já na reta final da faculdade de história, quando encarei a sala de aula de uma turma de adolescentes.
Porém, teve um terceiro, na época não compreendido como tal, pois participava na condição de parceiro de festas.
Mas a realidade nua e crua é que eu era uma espécie de estagiário do Kydo, com quem aprendi a arte de vender livros em bares.
DIOMAR KONRAD – Crônica: O estado de aglomeração
Mas não foi só isto. Como era um período de parcos recursos tecnológicos se comparado a realidade atual, havia todo um processo de edição e confecção durante o aprendizado.
Quando cheguei na cidade, o Kido já era um mestre no assunto. Passava o dia confeccionando suas obras e à noite fazia a ronda nos bares.
Nos momentos em que eu era convidado para participar da empreitada, a estratégia era simples.
Sentávamos no bar, pedíamos uma cerveja, ele falava com quem estava no balcão para autorizar a venda e depois distribuía seus livros entre os frequentadores.
DIOMAR KONRAD – Crônica: O petróleo não é nosso
Voltava para a mesa e, no fim da garrafa, circulava novamente pelas mesas para recolher os exemplares e fazer a venda. Dependendo do resultado, se tomava mais uma ou partia-se em direção a novo bar.
Os bares se distribuíam por uma faixa longa da cidade, o que garantia uma bela caminhada, amaciada pela cerveja do próximo bar. Não era uma tarefa fácil, pois muitos não olhavam o material.
Outros pelo contrário, chamavam o mestre para conversar, tomar algumas cevas e partilhar ideias.
Não era raro chegar em um bar e ali ir ficando, pois a prosa era boa, a cerveja gelada e o que não se vendia hoje deixava para amanhã, já que os livros não eram perecíveis.
DIOMAR KONRAD – Crônica: O recall
A companhia do Kydo era estimulante, inspirando a criação de textos. O resultado é que de estagiário passei a parceiro, dividindo com ela a alegria de criar pequenos textos.
Em uma dessas noitadas, criamos juntos os “Idiotas Anônimos”, entidade que reuniria periodicamente todos aqueles que assumissem a condição.
Um dos lemas do grupo era: “Antes eu era idiota e não sabia. Agora eu sei”.
Kido falava de dois tipos de idiotas, os autênticos e aqueles que haviam estudado, os idiotas científicos ou doutores.
Várias passagens em conjunto com o mestre são dignas de entrar para os anais literários.
DIOMAR KONRAD – Crônica: A indenização
Uma delas aconteceu quando viajamos juntos para o Rio de Janeiro, que nunca mais foi o mesmo depois da passagem do Kydo pelos bares de Copacabana. Em um deles, o mestre se viu sem dinheiro para pagar a conta e foi falar com o dono. Pediu para pagar o montante com a venda de livros no bar e mostrou um exemplar para o mesmo.
O cara gostou tanto do livro que perdoou a dívida e ainda deixou que ocorresse a venda no bar. O resultado foi um Kydo mais bêbado e com a guaiaca cheia.
Depois de estagiar com o Kydo, iniciei minha carreira solo na venda de livros em bares.
Uma coisa boa que aconteci é que a venda incluía uma dedicatória. Quando conseguia lembrar do que havia escrito ao cliente, no outro dia, estava iniciado o novo livro. Mas nem sempre as condições alcoólicas permitiam.
DIOMAR KONRAD – Crônica: Download
Em um determinado ano, resolvi fazer um passeio pelo Rio Grande com meus livros, para o qual convidei um amigo, o grande Celmar, agora meu estagiário. Por quase um mês, mostramos a obra em diversos municípios do Estado. Mas esta fica para outra crônica.
O certo é que estava arrecadando estagiários (amigos) para vender e pagar a conta do bar.
Uma vez, em Santo Ângelo, meu estagiário, o Oscar, se entusiasmou e vendeu todos os livros em um bar enquanto eu ficava conversando com os leitores.
A empreitada pagou todas as despesas da viagem
DIOMAR KONRAD: Crônica: O provedor
A venda de livros em bar está meio esquecida. Porém, no período efervescente da cultura santa-mariense, era muito frequente a gente ser abordado pelos poetas e escritores.
Também era comum ver os parceiros escrevendo em guardanapos, embalagens de cigarro, cadernetas e blocos de anotações.
Quantas poesias, crônicas, frases, charges, hai-kais, foram pensadas e escritas naquelas noites.
DIOMAR KONRAD: Crônica – A Abstenção
E não era de estranhar que aqueles que um dia compraram livros no bar agora estivessem vendendo.
Nem todos puderam ter a oportunidade de estagiar com o Kydo. Procurando nos meus documentos, não consigo achar o certificado.
Vou precisar de testemunhas para comprovar as horas de trabalho no processo de aposentadoria.

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