FABRÍCIO SILVEIRA
Jornalista e professor universitário
O Homem Sem Qualidades, na edição que tenho, é um livro de 1.280 páginas. Há poucos meses, comprei A Piada Infinita, tradução portuguesa para a aventura literária de 1.198 páginas de David Foster Wallace.
Algum dia, encontrarei tempo para lê-los.
Ontem, me recusei a colocar na mochila um exemplar do mítico Passagens, de Walter Benjamin, um calhamaço incrível, com suas 1.167 páginas, que mais parece um proto-Google em versão impressa.
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O eterno retorno do fascismo (IV)
Todos os livros citados – e muitos outros poderiam ainda ser lembrados: Submundo, de Don DeLillo, O Romance Luminoso, de Mário Levrero, As Benevolentes, de Jonathan Littell – são livros portentosos e, literalmente, muito pesados.
Nem é preciso referir à importância e aos méritos literários de cada um deles. Seja como for, são leituras que exigem fôlego e coragem, persistência e obstinação.
Para enfrentá-los, é preciso se tornar um leitor heróico. Tais leituras são como travessias que mereceriam ser premiadas financeiramente, inclusive.
Numa época acelerada como a nossa, diante da profusão de informações em que vivemos, submetidos a uma avalanche de dados (data overload), qual o sentido de um projeto literário assim? O fracasso? O mutismo? O leitor único e solitário?
FABRÍCIO SILVEIRA – OPINIÃO: O eterno retorno do fascismo (III)
Lembro-me de ter ouvido, certa vez – não me recordo de quem –, a afirmação de que “livro bom é aquele que pára em pé na estante”.
É uma afirmação banal, por certo. Mas esses livros – que se equilibram e sobrevivem “em pé na estante” – são ainda possíveis? São viáveis? São mesmo desejáveis, hoje em dia? Há espaço para eles?
Somos ainda capazes de suportá-los, em meio aos nossos afazeres, compatibilizá-los aos hábitos culturais (e cognitivos) que hoje temos, ao tempo de que dispomos?
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O avesso do bom senso
Os dias que correm – e esses dias correm cada vez mais rápido, cada vez mais sufocantes – talvez estejam solicitando a literatura em cápsula, a literatura injetável. A leitura ultra-dinâmica.
Se não pudermos nos tornar leitores tão assombrosamente vertiginosos, na velocidade da luz, que tentemos, ao menos, nos tornar leitores mais criteriosos, mais focados e menos submetidos às falsas polêmicas midiáticas, à informação dispensável e à pura e simples perda de tempo.

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