“No Alvoroço da Festa, Não Havia Corrente de Ferro que os Prendesse, nem Chibata que Intimidasse” – A comunidade negra de Santa Maria e sua Irmandade do Rosário (1873 – 1942) é o título do livro de Ênio Grigio que reproduz sua tese de doutorado em História pela Unisinos em 2016, publicado pela Câmara Municipal de Santa Maria em 2018/2019 e que terminei de ler agora, no dia do aniversário da cidade.
“No Alvoroço…” é um livro denso, de mais de 300 páginas, minucioso, fruto de uma pesquisa profunda sobre o tema proposto.
Em meu entender é de certa forma um modelo de pesquisa histórica; sistemática, com rigor metodológico, fundamento teórico, “cercando” o tema ao qual se propõe a estudar.
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Uma pesquisa que com a sua singeleza reposiciona algumas coisas sobre a história de Santa Maria e do Rio Grande do Sul.
Claro, é resultado também dos pesquisadores que vieram antes e facilita o caminho de alguns que certamente virão depois.
O foco específico do livro e da pesquisa é a Irmandade do Rosário de Santa Maria, fundada pela comunidade negra da região da Vila Rica (atual Bairro Rosário) em 1873.
O autor resgata a origem das Irmandades na Idade Média europeia e sua disseminação no Mundo Novo, no Brasil e no Rio Grande do Sul. E, por fim, chega a Santa Maria e à comunidade negra da Vila Rica.
Depois apresenta as origens da devoção à Nossa Senhora do Rosário, também com origem na Idade Média europeia (sec. XII) com o padre Domingos Gusmão (Dominicano); talvez ainda antes disso.
E foi se consolidando ao longo dos séculos, por exemplo na batalha de Lepanto, 1571, quando foram libertados vinte mil cristãos.
Enfim, N. Sra. do Rosário tornou-se uma referência de libertação dos oprimidos; no imaginário. Grigio depois avança numa revisão sobre a devoção à N. Sra. do Rosário no Brasil desde o tempo colonial.
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As irmandades no Brasil, em síntese, eram sociedades de leigos que se formaram para suprir a ausência da Igreja, e mesmo do Estado, nos rincões profundos do Brasil, nas áreas religiosas (por exemplo, onde não havia padres, capelas ou paróquias), na saúde (por exemplo nos hospitais de Caridade e nas Santas Casas), na educação e na assistência social.
A pesquisa, portanto, centra especificamente na fundação, funcionamento e, por fim, no encerramento e de certa forma no esquecimento histórico da Irmandade do Rosário e nos seus personagens.

Santa Maria, em 1873, era uma cidade pacata, recém emancipada, embora o povoamento já existisse desde 1777/1784 com as comissões de demarcação, porque ficava entre as possessões espanholas e portuguesas na América.
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Foi povoada inicialmente por portugueses/açorianos deslocados de outras regiões do Brasil como São Paulo, Curitiba, Laguna, que receberam sesmarias, índios guaranis dispersos das Missões, batalhões e imigrantes alemães que se estabeleceram no comércio, africanos que vieram como “mão-de-obra” para as estâncias, o comércio e os serviços domésticos e, posteriormente os imigrantes italianos.
Segundo levantamento de Ênio Grigio (p.77), em 1872, 51,9 da população de Santa Maria era formada de indivíduos brancos, 32% de pretos e pardos e 16% de caboclos.
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Como dissemos, Vila Rica, hoje Bairro Rosário, em torno da atual rua Silva Jardim e Igreja do Rosário, era um bairro negro e periférico da cidade.
Em síntese, a Irmandade do Rosário (e sua capela) foram uma criação da população negra, ainda no período da escravidão, como forma daquela população poder desenvolver sua sociabilidade e sua fé, já sincretizados, pois eram discriminados e excluídos de outros espaços da cidade.

Ali desenvolveram sua devoção, suas festas, suas procissões e enfrentaram as agruras da escravidão e da luta pela liberdade que se deu de forma institucional definitiva em 13 de maio de 1888.
As lideranças negras da Irmandade do Rosário deram também origem a outras entidades santa-marienses como o Clube Treze de Maio e o União Familiar, localizadas uma na atual rua Silva Jardim e a outra na rua Barão do Triunfo, respectivamente.
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Já no início do século XX, consolidada a abolição, a República, a linha férrea, a Igreja de Orientação Romana, a Irmandade do Rosário desapareceu, não sem traumas. E esse processo também faz parte da pesquisa e do livro.
Para finalizar, o autor nos apresenta, com nome, sobrenome, identidade social, vários dos atores, líderes negros da comunidade, e mostra o seu papel e seu protagonismo no período estudado.
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Alguns nomes: Sisnando Antônio de Oliveira, José Francisco do Nascimento, Adão Grabriel Haeffner, Antônio Gabriel Haeffner, Osório Nunes Nascimento, entre outros e outras. Gente que diante do cenário duro da escravidão, da abolição e da transição, foi capaz de construir um legado.
*Em 1942 é decidida a demolição da antiga Capela do Rosário. Em 1943 é lançada a pedra fundamental da nova igreja. E em 1952 é inaugurada a atual Igreja do Rosário.

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