LUDWIG LARRÉ
Jornalista
Tenho plena convicção na existência de uma força superior cujas leis regem o universo. Tenho fé inabalável – este é o termo – na imortalidade da alma, pois creio que corpo é matéria e alma é energia.
A partir destas premissas, busco entender a existência em seus mais amplos sentidos. Para além da convicção e da fé, a intuição me guia em direção a uma divindade cosmomórfica em contraponto aos deuses antropomórficos concebidos pela humanidade.
A necessidade ontológica desse processo de construção de hipóteses de entendimento, desde suas mais primordiais tentativas, levou o ser humano a formular perguntas e supri-las com as respostas mais convenientes aos diferentes contextos históricos.
Mais ou menos como aquela tendência da produção acadêmica atual que investiga perguntas adequadas a respostas pré-formuladas.
LUDWIG LARRÉ: O homo algoritmo
O resultado desse processo de formulação de hipóteses, a partir da consciência de uma espécie de vida inteligente que habita um entre incomensuráveis planetas de incontáveis galáxias, levou à construção de divindades que traduzissem mais as respostas desejadas do que a própria natureza do universo.
O Livro de Gênesis, assim como todo o Antigo Testamento, nunca me pareceu mais do que mitologia. De uma pobreza absoluta, aliás, se comparado às mitologias grega, romana e nórdica, por exemplo.
Zeus e Júpiter – na verdade, o mesmo sujeito – também conceberam criaturas a partir de elementos da natureza e de partes do próprio corpo ou do corpo de terceiros.
Deus soprou o barro para fazer Adão e arrancou-lhe uma costela para criar Eva. Odin, o pai de todos, teve uma neta serpente: Jormungand, filha de Loki com a gigante Angrboda.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: O aniversário
A serpente Jormungand era capaz de engolir a Terra. A cobrinha do Deus dos monoteístas aprendeu a falar para semear a discórdia e dar fim ao sonho do Jardim do Éden. Mesma história contada de outra forma em versão pocket pulp fiction.
“E Deus criou o homem sua imagem e semelhança”, diz o Gênese. Eis que o primeiro capítulo do livro já me propõe um deusinho muito do mequetrefe. É de parar a leitura por ali mesmo.
Quem o homem pensa que é na fila do pão do universo para se jactar a reprodução da forma e essência da divindade?
Presunção de proporções bíblicas! Culturas politeístas como a dos assírios, babilônicos, egípcios e hindus, dentre outros povos da antiguidade, ao menos foram mais criativas e menos óbvias na fabulação de seus panteões com divindades parte humanas, parte animais.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Minha sogra é uma peça
Hora de abrir um parêntese neste arrazoado teosófico, antes de ser demonizado por extremistas religiosos: sou mais admirador e seguidor da filosofia do profeta Jesus Cristo do que a grandessíssima maioria dos que se dizem e acreditam cristãos.
Não consigo assimilar, todavia, aquela parte da comunhão católica na qual os fiéis comem o corpo e bebem o sangue de seu deus. Sei lá, soa como uma espécie de ritual satânico, que nunca me dispus a praticar.
Dentre conceitos teológicos ancestrais, tenho especial predileção pelo telurismo dos druidas da cultura celta, dos povos originários em geral, africanos, orientais, aborígenes e ameríndios.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Estátua viva
Uma das idéias de divindade que me fascina é o Grande Espírito dos nativos norte-americanos. Wakan Tanka está no homem, assim como está no búfalo, na chuva que cai, no sol que a sucede ou na semente que germina.
Minha divindade possível está em cada detalhe e no todo da natureza, como um Aleph Borgeano.
Não apenas na natureza que conhecemos neste planeta e vislumbramos no firmamento, mas muito além e para todo o além do cosmos.
A divindade, a força superior cuja espécie humana busca traduzir em conceito desde os primórdios da evolução encefálica que permitiu a subjetivação, se resume a um pedacinho ínfimo do universo que conhecemos.
Perceba que esse plot twist do primata que começou a elaborar raciocínios elementares na mesma escala existencial do pensamento contemporâneo aconteceu no capítulo de hoje do seriado em exibição há 14 bilhões de anos.
LARRÉ – Crônica: O Dia da Terra
A teologia é prolífica em atribuir poderes mágicos e sobrenaturais a um deus idealizado. Deus não pode ser sobrenatural, uma vez que natural é tudo o que existe e tudo cuja existência seja possível, ainda que esteja além da compreensão humana.
Imaginar uma divindade além da natureza é negá-la a possibilidade de existência. A Natureza é a divindade em si.
Uma pretensão otimista do entendimento humano é de que a ciência da Física, por exemplo, seja capaz de explicar no máximo 5% dos fenômenos que regem o Universo.
Na melhor das hipóteses, nossa vã filosofia sequer cogita 95% do que há entre o céu e a Terra. Desse percentual mínimo de conhecimento, arriscando elucubrar dentro da margem de erro, temos matéria e energia como diferentes estados de um mesmo todo.
LARRÉ – Crônica: Um gato vadio, o mago e Raul Seixas
Creditamos a um deus a energia que define a matéria na harmonia de cada átomo e de cada combinação de átomos na harmonia do universo. De forma simplista, podemos dizer que energia é vibração e freqüência.
O deus possível é cosmomórfico e se traduz em energia. Deus – esse conceito que buscamos construir para dar razão à mísera condição humana – perde todo e qualquer sentido em seu esboço antropomórfico e em sua concepção antropocêntrica.
Já a comunhão entre a espécie humana e isso que chamamos de divindade é uma questão de sintonia. A antena está em nós humanos, assim como está em cada ser vivo, em cada elemento e em cada força da natureza.
O bicho homem só precisa encontrar a frequência correta. Positive vibrations! Jah bless!

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