O Estádio dos Eucaliptos! De longe parecia debruado nas costas pelo verde azulado das montanhas, como se a cidade nascesse a seus pés.
Mas, se não nascia, ali ela terminava. Depois do estádio, só restava o caminho para a montanha, através de uma vegetação brutal.
Na parte traseira do pavilhão social – uma construção imponente, vistosa – gigantes pés de eucaliptos levavam a pensar mais numa floresta do que num estádio de futebol.
Mas, na parte lateral direita, depois da entrada para o estádio, havia uma fileira de casas. Todas, lindeiras do estádio, ocupadas por ferroviários.
A primeira dessas residências, construída ao longo do corredor que dava entrada para o estádio, era ocupada pela família Finger. Nela morava Ilmo, o companheiro mais antigo de Natalício na zaga do periquito.
EICHBAUM: O sonho desfeito
O Estádio dos Eucaliptos tinha sido a segunda casa do Ilmo, a escola onde ele ensaiara e aprendera a desenvolver seu magnífico futebol: aprendeu a jogar futebol em casa.
Seu irmãozinho menor não teve igual sorte. A distância da cidade, a dificuldade de encontrar uma parteira de madrugada, para lhe dar a vida, foram empecilhos que roubaram meia vida do menino: a falta de oxigênio no cérebro o deixou com deficiências físicas e mentais. E assim ele cresceu.
Mas, lindeiro dos Eucaliptos, não podia ser senão um periquito de raiz. Raiz doentia. O Riograndense era sua paixão, o único amor que tinha na vida. E tudo o que lhe fosse contrário ele repelia com violência.
Essa violência cresceu, depois que o Riograndense sofreu do Internacional uma humilhação trágica: 5×0.
EICHBAUM: O sonho dos meninos (III)
Binho Louco, como era chamado, andava pelas ruas da cidade rengueando, com um olho rebaixado, a boca disforme, o braço direito à meio altura, sacudindo a mão flácida. Quando o via, a gurizada caçoava: 5×0.
Ele corria endoidecido atrás daqueles colorados safados. Mas a gurizada só fazia isso em grupo. Sozinho, ninguém se atrevia. Todos o temiam, o evitavam, fugiam, quando ele surgia repentinamente numa esquina.
Binho foi uma lenda. A lenda do medo. A lenda que impunha respeito pelo valor dos ferroviários que vestiam a camiseta verde-rubra do Riograndense, numa cidade onde o futebol imperava como o espetáculo infalível dos domingos.

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