LUDWIG LARRÉ
Jornalista
Fiquei sabendo já no final da tarde desta sexta-feira que Jairo Ribas, cirurgião-dentista de larga trajetória em Santa Maria, nos deixou dois dias antes, na noite de quarta-feira.
A partida do profissional que atendia gratuitamente uma legião de necessitados e não conseguia cobrar honorários dos (muitíssimos) amigos deixa uma enorme lacuna humanitária na cidade. Para mim tem outro sentido. Perdi o Tio Jairo.
LARRÉ: O Maneco, Seu Antoninho e Seu Antonello
Vizinho e compadre de meus pais, frequentava nossa casa – e atendia toda a família – desde que me conheço por gente. Coração de pura bondade, alma leve de guri, bom humor contagiante.

Cresci rindo, brincando e ouvindo as estórias engraçadíssimas contadas pelo Tio Jairo. Na verdade, não o tratava por “tio” e sim por “compadre” Jairo – e “Comadre Tânia” – tal era a proximidade e a intimidade expandida a partir da amizade com meus pais.
Enquanto meus pais foram vivos, o convívio era permanente, fosse na casa de uma das famílias fosse da outra. Compadre Jairo e família nos acompanhavam nas visitas de final de semana a casa de parentes no Alto das Palmeiras e no Passo do Sarandi, onde rememorava suas vivências da infância pela campanha, lá pras bandas de Dom Pedrito.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: O aniversário
As melhores pescarias que fiz com meu pai tinham sempre a presença do Compadre Jairo. Contavam-se mil histórias junto ao fogo de um acampamento e viviam-se outras mil para serem lembradas no futuro.
No consultório, era uma dificuldade manter a boca aberta sem rir das piadas, dos ditos e dos causos do Compadre Jairo.
– Pronto, meu filho! (ele chamava todo mundo de “meu filho”, “minha filha”). Agora tá com os dentes lindos como aquele astro do cinema!
– Qual astro do cinema, Compadre Jairo?
– Rin-Tin-Tin – dizia ele, após um suspense – e lá vinha mais uma gargalhada.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Minha sogra é uma peça
Compadre Jairo levou umas bordoadas feias do destino. Perdeu um filho ainda criança e uma filha adulta jovem. Cada período de sofrimento, porém lhe proporcionava ainda maior crescimento espiritual.
A filha mais velha, Daniela, era afilhada dos meus pais. A segunda, Gabriela, seguiu a tradição familiar na Odontologia e se tornou minha dentista quando o Compadre Jairo foi reduzindo o atendimento no consultório.

Lembro da terceira gravidez da Comadre Tânia, quando todos torcíamos por um gurizinho. Estávamos almoçando quando o Compadre Jairo entrou porta adentro com a boca nas orelhas de faceiro.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Estátua viva
Isso na era pré-ultrassom, acredito, pois não se sabia por antecedência o conteúdo das barrigas das grávidas.
Compadre Jairo entrou ofegante e eufórico. Antes que recuperasse o fôlego tomado pela emoção, foi inquirido por meu pai:
– É um guri, compadre?
– Não, compadre!
– Outra guria – concluiu minha mãe.
– Não, comadre!
– Como assim? – indaguei.
– Duas gurias! – comemorava o Compadre Jairo.
O gurizinho veio depois, e o destino, esse cruel, levou o Guilherme aos 11 anos de idade, vitimado por um raro caso de lúpus em paciente masculino nessa faixa etária. Foi um baque terrível para todos nós.
LARRÉ – Crônica: O Dia da Terra
Na época, residindo em Joinville, não pude estar em Santa Maria para abraçar o Compadre Jairo, a Comadre Tânia e as gurias. Sempre me ressenti muito por isso.
Mais recentemente, o destino outra vez foi impiedoso e nos levou a Luciana, uma das gêmeas.
Juliana, a outra das gêmeas, foi quem me deu a triste notícia da partida do Compadre Jairo, poucos minutos antes de eu começar este texto.
Só então fiquei sabendo que o Compadre teve um câncer diagnosticado em dezembro passado, com prognóstico de poucos meses de vida. O que ameniza o sofrimento de todos nós é a maneira como a Ju relata o quanto o Compadre Jairo estava espiritualmente preparado para fazer a passagem.
Não tenho qualquer dúvida em relação a isso, diante da grandeza do espírito do homem que conheci da vida toda.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: “Passos do Vislumbre”
Curioso é que nos últimos dias, andava tomado de uma saudade do Compadre Jairo. Cheguei a comentar com minha esposa a vontade que tinha de visitá-lo, ainda que sequer soubesse do diagnóstico.

Na terça e na quarta-feira, tive uma dorzinha de dente. Na manhã de quinta-feira, fui ao consultório do amigo Fabiano Mendes Batista, odontólogo formado na UFSM, que me atende em Porto Alegre.
Comentava com o Fabiano a respeito do Compadre Jairo, e meu atual dentista me dizia ter sido contemporâneo da Gabriela na universidade.
Coincidência ou não, Fabiano não encontrou nenhuma cárie, nenhuma lesão aparente no local da minha dorzinha.
Fez um Raio-X, requisitou uma panorâmica, e minha dorzinha de dente sumiu com o antinflamatório prescrito.
LUDWIG LARRÉ: Os adoradores do mal assustam mais do que o mau em si
Hoje, ao saber da partida do Compadre Jairo, fiquei elucubrando relações entre canais dentários e canais espirituais.
Pode ter sido a maneira como meu espírito captou o desenlace de outro espírito tão próximo e de tão fortes laços afetivos.
Vou sentir falta da alegria do Compadre Jairo, que não deixava de sorrir nem quando a vida lhe batia forte.
Em um de nossos últimos encontros, creio que no enterro de minha mãe ou de meu pai, o Compadre Jairo, sempre presente com seu abraço e conforto, contou um episódio da época em que jogou futebol profissionalmente no Guarani Atlântico e no Rio Grandense.
LUDWIG LARRÉ: Deus cosmomórfico
Além dele, o irmão mais novo, Enílson, também foi jogador profissional de futebol. O irmão mais velho, Ben-Hur, se não chegou a se profissionalizar, da mesma forma foi atleta, antes e ao longo da carreira militar. Pois o Compadre Jairo era centroavante do Rio Grandense e chegou a enfrentar o lendário zagueiro gremista Aírton Pavilhão, este já em final de carreira.

O lance “narrado” pelo Compadre Jairo, dando conta da habilidade de um dos mais emblemáticos defensores da história do nosso tricolor, clube do qual o Compadre era torcedor fanático, foi mais ou menos assim:
“Meu filho, lançaram uma bola para mim na ponta direita. Eu saí três metros na frente do Aírton – e olha que eu tinha velocidade –, e o Aírton chegou três metros na minha frente, perto da bandeirinha do escanteio. Ele dominou a bola, me deu as costas para proteger a jogada e girou. Quando dei a volta nele, fechando espaço para que ele não recuasse para o goleiro (naquela época podia-se atrasar a bola, com os pés, para o arqueiro), ele levantou a bola e puxou de ‘Charleston’, por cima de mim, lá da bandeirinha de escanteio para as mãos do goleiro.”
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Teteza
Esse era o Compadre Jairo, o homem que enfrentou o destino e o zagueiro Aírton Pavilhão. Vai com Deus, Compadre!
Obrigado por tudo de lindo que entregaste nos gramados, no consultório, e na vida. O Gui e a Lu estão contigo agora. Beijo no coração da Comadre Tânia, da Dadi, da Gabi, da Ju e dos netos.

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