EDINARA LEÃO
Escritora e doutora em Literatura
Os olhos estavam no mar, mergulhados nos azuis. E os teus verdes não conseguiam se fazer ver. Assim, os dias foram afundando as cores, o tom opaco misturou-se à mobília, e a casa virou pó. Só bolor e mofo.
O conforto das coisas sangrando em seus lugares em silêncio, sem pranto e à espera. Houvesse um tambor, um compasso, algo sem nome, qualquer coisa que quebrasse a atmosfera.
Nada. Os dedos fugiam da angústia desenhando no pó esboços de partituras de outros tempos. O sentimento fingido de amor foi desbotando, misturando-se aos livros amontoados nos cantos.
Eu já era partida, mas fui-me esgueirando nas cortinas vermelhas, amassadas. Fui ficando, amassada também.
Olhos sem pranto, porque esquecidos de que houvera outra vida, sem a indelicadeza dos lamentos, nem o desejo distante de outros olhos.
Caminho sem pressa até a porta dos fundos. Afundo sem desejo. Sou terra seca e os vincos não tardam. Delongo-me nas idas. Tardo nas voltas.
Não sei doer, doer seria uma espécie de paixão, não cabe aqui na quietude da casa de poesia amanhecida de juntar pó. Horas fingidas. Tardes pardas. Cordas rompidas.
O rosto virado foi quase sem sentir. Eu deveria pedir perdão? A careta de meu rosto diz não. Assim fui reconciliando o desalento em dias cinza. Sós na cinza dos dias, emaranhamo-nos.
Havíamos andado demais para voltar, os pés cansados, a alma torpe, traída do sonho. Mas o sim não veio da garganta arranhada.
Era melhor ficar por ali mesmo, descansando os pés. Eu parecia ter vindo de um filme antigo para, entrementes, assistir ao desenlace.
Tocava o “Adágio” no dia do convite. Um arrepio. E a mala era marrom. Eu sei que não era a hora. Horas se fazem – dizem os que entendem do viver.
EDINARA LEÃO – Conto: Bonecas de pano e de pele
Eu que não entendo nada, só pude ver com olhos marrons a mala marrom. Consegui pensar que era tarde. Não haveria mais meios-dias. O corpo não quis estrada. A alma fingiu morte.
Afastou-se para não testemunhar o arremesso. Raiz vagante na terra já não recebe alimento. Depois, mais nada.

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