ODILON CUTI – Professor
“Se eu tivesse somente uma hora de amor
Se fosse a única coisa que eu teria
Uma hora de amor
Nesta terra
Meu amor então
Eu te daria.”
O Mouro (Othelo – Willian Shakespeare )
Debatendo o primeiro desta série de cinco artigos sobre o tema Amor e suas nuances, ouvi de uma leitora: “ Amor se vai quando o desejo termina !?”. Outra questionou: “ o amor de verdade morreu?”
“No tempo de nossos avós , os casais viviam felizes por muitos anos “- disse outra.
Como se tempo e felicidade, somados, tivessem como resultado amor amplo e irrestrito. Não, não é este cálculo do amor. O “mito” de que amor se faz na experiência, nas agruras da relação, é proporcional a dizer que todos aprendemos a amar através das dores, traições, distâncias e rejeições.
Ah, mas naquele tempo não tinha aplicativos de relacionamentos! Os amantes se reuniram no sarau. À luz do dia e, se possível, com o translado dos responsáveis – ida e volta. Tempos mudaram. O mito do amor romântico sobreviveu.

Crônica: Amor que se perde é amor que se aprende
Amores tem diversas faces. E quais seriam as outras faces? O sociólogo britânico Anthony Giddens afirma que a liquidez tem, sim, uma parcela positiva. Com toda a liberdade e cada vez mais longe da pressão de se casar e formar logo uma família, é possível encontrar alguém realmente especial.
Sendo assim, diferente dos tempos áureos dos saraus e matinês – nos relacionamentos modernos, as pessoas não ficam presas a relações insatisfatórias, pois se sentem no direito de ir em busca de algo melhor quando alguma coisa não estiver dando certo.
“Amar se aprende (…) mesmo o amor de si passa por isso. Não há outro caminho. O amor também deve ser aprendido”. Podemos até discordar do aforismo de Nietzsche em sua obra A gaia Ciência, mas jamais podemos fugir desta reflexão.
Desde a mais tenra idade somos ensinados que amar é a solução para os dramas do mundo. O bálsamo que enfeitiça os amantes. A força motriz das relações. E quando amor não acontece como esperamos? Quando o desejo e a paixão dão lugar a emoções negativas e ao distanciamento? Acredite, o amor dos contos de fadas, vive nos contos. Já no mundo real, o amor é, claramente, mais complexo.
ODILON CUTI – crônica: A vida que se vive, na vida que se vai
Ao contrário do que muitos pensam, mitologicamente, amor é carência e falta, pois é filho de Pobreza; por outro lado, amor também é abundância de artimanhas e energia, pois é filho de recurso.
O amor é um misto de falta de sabedoria, de posse de astúcia; amor é pobre e rico de beleza, na mesma proporção. Assim, os seres humanos desejam completar sua vida (carência) e são dotados da capacidade de buscar aquilo que pode lhe dar essa completude (recurso ), citados no texto anterior.

O que torna o amor mais obscuro é a falta de entendimento do ser humano. Nenhum de nós quer perder o ser amado! Que, em tese, nos completa. A mera possibilidade de perder nos torna infelizes. Esquecemos, por diversas razões, que não somos propriedades uns dos outros. E perdemos nossa capacidade de olhar a vida como um espaço de reconstrução e criação de novas expectativas.
O sentimento de falta (…) de relação entre credor e devedor, nos torna dependentes uns dos outros. O homem designa a si mesmo, valores e opiniões próprias do animal e absolutamente mercantis.
Nos tornamos objeto de compra e venda. O desejo nos faz perceber a carência, enquanto o amor nos satisfaz. Amor e desejo, carência e satisfação, são próprios dos amantes.
Professor é novo articulista do Paralelo 29
O desejo nos torna primitivos e, eventualmente, o amor nos torna nobres e civilizados. Embora o ser humano justifique certas atitudes em nome do amor, ainda somos dotados da capacidade de limitar nossas vontades em nome da lei, da moral e da punição.

Por fim, é verdade, que somos prematuros na experiência de amar a si mesmos. Dominados pela carência, pelo ciúme, pelos egoísmos, vamos vivendo e recriando uma sociedade débil e insalubre.
E assim vamos aprendendo que desejo e carência são partes de um mesmo caminho: o da felicidade e do amor.
Somos fiadores do sentimento do outro e credores de uma reciprocidade que, na prática, não existe. E ao longo do tempo, fomos educados a acreditar que o amor do outro preenche todas as faltas.
Pobres errantes em busca de si, tomamos o outro de atalho, em nome de nossa felicidade.
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