Paralelo 29

A Corda Bamba de Brasília: o novo BRICS e o preço da neutralidade

Foto: Fernando Frazão, Agência Brasil
José Renato Ferraz da Silveira Professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria no Departamento de Economia e Relações Internacionais e Líder do Grupo de Teoria. Arte e Política (GTAP).
Pietra Souto Lemberck é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

A diplomacia brasileira construiu, ao longo de décadas, uma reputação baseada em um talento muito específico: a capacidade de conversar com todos.

O Brasil sempre foi aquele ator que transitava entre grupos rivais, apertava a mão de adversários históricos e saía de cena antes que o conflito explodisse por completo.

Durante muito tempo, essa ambiguidade calculada foi vista como virtude. No cenário global de 2026, porém, a festa acabou. O que restou foi uma sala de portas trancadas, interesses inconciliáveis e potências cada vez mais dispostas a exigir alinhamento.

O BRICS mudou de natureza

A vitrine mais visível desse novo e desconfortável arranjo é o BRICS. Já não se trata apenas daquele agrupamento concebido nos anos 2000 como um clube promissor de economias emergentes em busca de maior espaço nas instituições financeiras internacionais.

O BRICS de hoje mudou de natureza. Com a ampliação do bloco e a entrada de novos membros, seu centro de gravidade se deslocou.

O que antes parecia sobretudo uma articulação econômica passou a adquirir contornos geopolíticos mais nítidos, funcionando, na prática, como contraponto à ordem ocidental e, em muitos momentos, como palanque de contestação liderado por Pequim e Moscou.

É nesse contexto que o Brasil se vê diante de um dilema estratégico incômodo. Como um país que cultiva, em sua tradição diplomática, a moderação, o universalismo e a solução pacífica de controvérsias administra o fato de dividir espaço com atores profundamente tensionados com o Ocidente, como o Irã — um país submetido a pesadas sanções, situado no epicentro de crises militares recorrentes e, ao mesmo tempo, relevante para os interesses comerciais brasileiros?

Malabarismo diplomático

O Brasil tenta executar um malabarismo diplomático de alta complexidade. De um lado, precisa preservar sua relação histórica com os Estados Unidos e a Europa, de onde ainda vêm investimentos, tecnologia, mercados e legitimidade institucional.

De outro, busca aprofundar sua presença no BRICS para não perder espaço em uma arquitetura internacional cada vez mais marcada pela fragmentação do poder e pela ascensão de polos alternativos. O problema é que a margem para essa ambiguidade está diminuindo.

Washington e Bruxelas cobram sinais mais claros de afinidade política, sobretudo em nome da defesa das democracias liberais e da chamada ordem internacional baseada em regras.

Ao mesmo tempo, observam com desconforto a disposição brasileira de permanecer em fóruns ao lado de governos que o Ocidente trata como párias ou revisionistas.

No sentido oposto, China e Rússia pressionam pelo fortalecimento de um bloco mais coeso, assertivo e comprometido com projetos como a desdolarização e a erosão da centralidade ocidental no sistema internacional.

Para o Itamaraty, o desafio é evitar que o Brasil seja capturado simbolicamente por qualquer um desses polos. Trata-se de um jogo frio, pragmático e cada vez mais custoso.

Nova Guerra Fria

O Brasil não permanece no BRICS ampliado porque compartilha a visão de mundo ou a política doméstica de todos os seus integrantes.

Permanece porque, em um mundo dividido em blocos, afastar-se dos principais fóruns do Sul Global seria um erro estratégico com elevado custo econômico e diplomático.

A velha narrativa de que o Brasil pode ser, simultaneamente, amigo de todos começa a colidir com a realidade de uma nova Guerra Fria comercial, tecnológica e financeira.

Em um ambiente internacional no qual neutralidade passou a ser interpretada, muitas vezes, como hesitação, oportunismo ou fraqueza, equilibrar-se entre lados rivais deixou de ser uma arte confortável. Tornou-se um exercício de risco permanente.

No xadrez global de 2026, a neutralidade já não é abrigo. É exposição. E talvez nunca tenha sido tão cara.

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