JOSÉ RENATO FERRAZ DA SILVEIRA – PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS E ANALISTA DE POLÍTICA INTERNACIONAL – UFSM
Sou de esquerda. Progressista. Defensor da universidade pública, da ciência, da educação federal e profundamente antibolsonarista. E talvez exatamente por isso eu me recuse a tratar qualquer greve interminável como um ato automaticamente virtuoso.
Existe um problema sério quando parte do movimento sindical transforma a paralisação permanente em método político quase automático. A greve deixa de ser instrumento excepcional de pressão e passa a funcionar como ritual burocrático previsível, repetitivo e cada vez menos eficaz socialmente.
O resultado aparece agora de forma cristalina. Desde o início do governo Lula 3, já tivemos: — grande greve nacional dos técnicos em 2024; — paralisações nacionais em 2025; — nova greve e paralisações em 2026.
Ou seja: um governo eleito com forte apoio do funcionalismo federal enfrenta praticamente mobilizações contínuas da própria base histórica que ajudou a elegê-lo. A ironia política é gigantesca. Enquanto isso, laboratórios atrasam atividades, compras públicas travam, licitações são interrompidas, viagens acadêmicas são canceladas, setores administrativos entram em colapso parcial e a imagem pública da universidade sofre desgaste progressivo perante a população.
E aqui reside um ponto que parte da esquerda universitária parece não perceber: a sociedade mudou. A população de 2026 já não reage automaticamente à greve com romantização ideológica. Muitos observam apenas a interrupção dos serviços, o custo institucional e a sensação de paralisia crônica.
Defender universidade pública não significa defender qualquer método adotado em seu interior. Defender direitos trabalhistas não significa transformar greve em rotina permanente.
E ser progressista não exige abdicar do senso crítico. Aliás, talvez a crítica mais dura venha exatamente de quem continua acreditando na universidade pública — mas entende que desgaste contínuo, radicalização automática e paralisia infinita não fortalecem instituições. Apenas corroem sua legitimidade social lentamente. A esquerda perde muito quando troca inteligência estratégica por automatismo sindical.
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