Formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o jornalista, professor e pesquisador em comunicação Fabrício Silveira lançou em 2020 o livro ‘Mecanosfera / Monoambiente’.
A obra, publicada pela editora Zouk, é definida como novela de ficção teórica. A história se passa em Porto Alegre e aborda o mundo acadêmico no Brasil.
Silveira é mestre em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos e pós-doutor pela School of Arts and Media (Reino Unido).
Neste artigo a mestranda em Comunicação pela UFRGS Kelly Demo Crhist faz uma resenha da obra do santa-mariense.
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Mecanosfera/Monoambiente
Kelly Demo Christ
Mestranda em Comunicação/UFRGS
No livro Mecanosfera / Monoambiente, recém-lançado, o filósofo e crítico cultural inglês Mark Fisher é citado com destaque. Das páginas 26 a 31 somos conduzidos pelas impressões do protagonista a respeito da obra Fisher, K-Punk. Estamos assim imersos nessa e noutras percepções sobre o cotidiano do narrador. A identificação produzida é imediata.
O protagonista, assim como o leitor, e Fisher, e talvez todos nós, sentimos, em alguma medida, que há um fantasma das experiências vividas que passaram, um declínio do espaço público, entre outras perdas… E aqui restamos, descompassados.
O protagonista, Fabiano Evangelista, é desligado da universidade onde deu aula por mais de vinte anos em função da falta de publicação de artigos científicos.

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Uma desculpa leviana para a dispensa, trazida à tona de forma a nos fazer pensar até que ponto o sistema de produção capitalista, que transforma tudo em números, invade também o espaço acadêmico – onde a produção de conhecimento não deveria, pura e simplesmente, se transformar em “quantos” e sim “para quem” e “o quê”.
Essa transformação em máquina de produção refere à “mecanosfera” do título. A história ganha outros contornos devido ao momento de pandemia em que o livro é lançado, cujo monoambiente vivido (e narrado) pelo personagem, que se encontra desempregado, perdido, rodeado de estresses cotidianos (como a internet que não funciona), fantasias “diletantes” (como a de circular nos anúncios classificados, no jornal do fim de semana, as vagas de emprego que teria capacidade de disputar, sem nem sequer cogitar verdadeiramente), parece retornar.
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O monoambiente é quebrado diversas vezes pelas idas a bares e restaurantes e, a partir da página 66, quando descobre que passou em primeiro lugar num edital de uma bolsa de pesquisa na pós-graduação.
Em seguida, já estamos noutra etapa narrativa. Por um lado, politicamente, mantém num vínculo muito estreito com o que vivemos agora, em que a cada dia temos uma nova manchete de política, comentários esdrúxulos, notícias revoltantes ou apenas tristes.
O livro lembra também os ministros flagrados em seus currículos fraudados, o decreto de flexibilização das regras para posse de armas de fogo, o episódio do “golden shower” e outras notícias que movimentaram o Brasil nos primeiros três meses de governo Bolsonaro. Parece distante, mas, ao mesmo tempo, ainda muito presente, muito colado no momento atual.
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Dessa forma, o monoambiente não deixou de ser real, porque ainda há um forte sentimento de estarmos cativos dentro de nossas casas pela questão da pandemia.
Contudo, antes já existia uma sensação de cativeiro, em termos de política, em termos de realidade, uma ideia de não saber para onde ir, a qual o livro nos remete, transmitindo-nos a sensação de perdição do personagem.
A sensação de medo, revolta e solidão, ainda que agravados pela pandemia, já eram latentes anteriormente. É isso o que o livro nos mostra.

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