Um dos presos políticos mais conhecidos no Rio Grande do Sul, o advogado João Carlos Bona Garcia, 74 anos, morreu na noite de sexta-feira (12), vítima da Covid-19, em Porto Alegre.
Bona, como era conhecida, estava internado no Hospital da Brigada Militar, na capital gaúcha.
Chefe na Casa Civil no governo de Antônio Britto (1994-1998), Bona também foi diretor do Banrisul e presidente do Tribunal Militar do RS.
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Remanescente da esquerda emedebista
O advogado era um dos raros remanescentes da esquerda no PMDB. Em 2018, ele foi uma das poucas vozes a se insurgir contra o apoio a Jair Bolsonaro (na época do PSL) no segundo turno das eleições presidenciais.
Além de criticar duramente os correligionários que abriram voto para Bolsonaro, Bona Garcia declarou voto no petista Fernando Haddad.
Durante o regime militar, Bona Garcia foi preso e duramente torturado nos porões do Doi-Codi, órgão de repressão da ditadura instaurada em 1964.
Com a vida em risco, Bona Garcia viveu no exílio em países como Argentina, Chile, Argélia e França.
Ele só retornaria ao Brasil com a anistia política. Formou-se em Direito. Além de ter trabalhado na Assembleia Legislativa, chegou a concorrer a prefeito de Passo Fundo.
Em suas redes sociais, o MDB publicou matéria falando sobre a trajetória do militante, descrito como “grande soldado” do partido.
Passagem pela luta armada e luta pela anistia
A militância de Bona Garcia começou aos 17 anos e ingressou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo que participou da luta armada.
Por conta de sua oposição ao regime militar, foi preso no início da década de 1970 por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
Durante um mês, agentes do regime impuseram tortura física e psicológica ao preso político.
Dez anos mais tarde, sua luta pela anistia de presos políticos surtiu efeito. Bona Garcia chegou a presidir o primeiro Comitê Brasileiro pela Anistia, quando ainda morava na França.
Sua aproximação com o grupo que fundou o PMDB, segundo o partido, foi obra do ex-senador Pedro Simon, outro ícone do partido no RS.
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Trajetória contada em livro e filme
A trajetória política e de combatente da ditadura é contada no livro “Verás que um filho teu não foge à luta” e no filme “Em Teu Nome”, dirigido pelo cineasta Paulo Nascimento, que conta a história de Bona e sua esposa, Célia.
A morte de Bona Garcia teve grande repercussão nas redes sociais, sobretudo entre militantes de esquerda.
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Professor da UFSM recorda amizade
O professor de História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e militante do PC do B Diorge Konrad fez uma postagem em seu perfil no Facebook lamentando a morte do advogado.
“Estou impacto pela notícia somente sabida neste momento. Se foi nosso lutador João Carlos Bona Garcia. Garcia (PRESENTE!) mais uma vítima do genocídio da Covid.
Konrad conta que conheceu Bona em novembro 2009, quando Nascimento e Marilaine Costa, respectivamente diretor e produtora do filme “Em Teu Nome” convidaram o professor para comentar o documentário.
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Filme lançado em Santa Maria
O lançamento, em Santa Maria, ocorreu na sala do cinema que funcionava no Santa Maria Shopping, durante o festival Santa Maria Vídeo e Cinema.
Daquela data em diante, Konrad e Bona se tornaram amigos.
O último encontro entre os dois ocorreu em um evento da Comissão da Verdade da UFSM, grupo formado para investigar atos autoritários, como perseguições, ocorridas na instituição no período em que os militares governaram o Brasil.
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Jantar com cardápio de histórias
Na ocasião, Bona comentou o filme “com seu bom humor de sempre e presentou a plateia com diversos DVDs de “Em Teu Nome” e diversos volumes do livro. Bona estava com Célia, sua esposa.
Depois do evento, alguns participantes foram jantar com o casal. Segundo Konrad, Bona mostrou indignação com o impeachmento da então presidente Dilma Rousseff, classificado como golpe de 2016 pela esquerda.
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Políticos lamentam perda
Políticos gaúchos, em especial aqueles ligados ao MDB também lamentaram a perda do advogado que ajudou a fundar o PMDB, hoje novamente MDB.
O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, disse que Bona era seu “amigo do peito, de lutas e caminhadas, enquanto o petista Tarso Genro saudou o lado combatente do militante emedebista.
Já o deputado federal Alceu Moreira, presidente do MDB-RS, disse que “Bona Garcia foi um ícone da resistência, da resiliência e da persistência”.
“O seu maior patrimônio é a garra, a coragem e a determinação. Foi um filho deste Brasil que jamais fugiu da luta”, afirmou Moreira.
Além da esposa, Célia, Bona deixa os filhos Rodrigo, Luciano e Diego, e os netos Lucca, Arthur, João Paulo, Cecília e Pedro. A despedida ficou restrita aos familiares e amigos mais próximos devido à pandemia de Covid-19.

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