LUDWIG LARRÉ
Jornalista
Sempre fui fascinado por fábulas e contos de fadas. Esta que, em partes lembro a seguir, ficou particularmente gravada na memória da tenra infância.
Tenho certeza de que não a li. Ou a mãe leu para mim, antes que eu aprendesse a acolherar as letrinhas, ou me foi contada, em alguma versão agauchada, pelo Vô Pedro.
Algo me sugere que possa ser originária de alguma versão de “O Gato de Botas” ou que remonte a “As Mil e Uma Noites”.
Não tenho certeza. Ajuda dos universitários (do século passado, milênio anterior), por favor!
Então, resumidamente e da forma como me vem à memória:
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Comentarista do BBB
Era uma vez um gato muito esperto que, certa feita, sei lá por que cargas d’água, arrumou uma treta com um poderoso mago.
O mago, antes de dar cabo do gato, resolveu exibir seus poderes e humilhar o bichano. Era capaz de se transformar em qualquer coisa, em qualquer ser.
O gato malandro, engambelando para ganhar tempo, passou a desafiar o mago.
– Duvido que te transformes em um touro.
O mago, num piscar de olhos, bufava, escarvava o chão e cutucava a ponta do chifre afiado no peito do gato espremido contra a parede.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: 1964 e algumas realidades alternativas
– Duvido que te transformes em um leão.
Num estalar de dedos, o mago transmutou-se na fera, que balançava a juba e rugia um bafo dos infernos na cara do pobre gatinho.
– Duvido que te transformes em um dragão, provocou o gato.
No instante seguinte, um dragão soprava labaredas, chamuscando os bigodes do gato acuado em um canto.
– Duvido que te transformes em um rato.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: “Passos do Vislumbre”
O mago riu pela última vez, estalou os dedos e, como diz meu Tio Nérso, o gato malandro “cruck”! Era uma vez o mago, e o gato lambeu os bigodes.
É mais ou menos assim que vejo a cilada em que a contemporaneidade nos meteu. Tal qual o mago fascinado com poderes, transformamos a vida em um camundongo à mercê de ser abocanhado pelo primeiro gato nem tão malandro dos becos da tecnologia da informação.
Saudade daquele tempo em que a vida não cabia num HD muito menos em um smartphone!
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Dummheit uber alles
Enquanto digitava as linhas acima, bateu aquele “toca Raul”. Em 1974, o amigo do mago, já profetizava:
“A civilização se tornou complicada, que ficou tão frágil como um computador.
Se uma criança descobrir o Calcanhar de Aquiles, com um só palito para o motor”.

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