FABRÍCIO SILVEIRA
Jornalista e professor universitário
Os números repassados pelo jornalista José Roberto de Toledo na edição do Foro de Teresina da última sexta-feira (04/06) realmente impressionam.
O Brasil se destaca em todos os rankings relativos à pandemia de Covid-19. Nosso país possui a sexta maior população mundial. Temos, porém, o segundo maior número absoluto de mortos.
A estimativa é a de que possamos chegar às 500 mil mil mortes dentro de uma semana, até a metade deste mês de junho. O único país à nossa frente são os EUA, com cerca de 596 mil mortos.
FABRÍCIO SILVEIRA: Sociologia perfeita
Entre os cem maiores países do mundo, o Brasil está em quarto lugar no que diz respeito ao número de mortos por cem mil habitantes. A Hungria tem 308 mortos por cem mil habitantes.
A República Tcheca tem 281 mortos por cem mil habitantes. A Bulgária, dentre os três primeiros, tem 255 por cem mil habitantes. O Brasil vem logo em seguida: registra 219 mortos a cada cem mil habitantes.

Em números absolutos, no entanto – para recuperarmos os termos de comparação expostos no primeiro parágrafo –, a República Tcheca está em 20° lugar. A Hungria, por sua vez, ocupa a 21° posição no que toca aos números absolutos.
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O eterno retorno do fascismo (IV)
Ou seja: na sobreposição desses índices – como se fôssemos tomá-los em conjunto –, a situação de nosso país é pior do que a situação dos países do Leste Europeu acima citados.
Mas não pára por aí. Os EUA já vacinaram, com as duas doses, cerca de 41% do total de sua população. Entre os brasileiros, 22% receberam a primeira dose, mas apenas 11% já confirmaram a segunda dose.
Ou seja: estamos entre os países onde a letalidade da doença é mais acentuada, seja em termos absolutos, seja em termos proporcionais, e onde a vacina menos circula (ou circula com mais lentidão).
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O avesso do bom senso
Num depoimento recente, dado na segunda-feira, 07/06, o epidemiologista gaúcho Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, disse que “três em cada quatro brasileiros que morreram não teriam morrido, caso o Brasil tivesse ficado na média mundial do enfrentamento da pandemia”.

Hallal se referia à adoção das medidas mais ou menos consensualmente praticadas no mundo todo, à maior rapidez na obtenção e na garantia das vacinas, ao bloqueio à desinformação e às mistificações, de toda ordem, que cercam o tema.
É esse o horizonte que encaramos. Foi isso que autorizou outro epidemiologista, o norte-americano Eric Feigl-Ding, no âmbito da FASC (Federal Association of Scientists), a cunhar um novo termo técnico: o “pandemicídio”.
FABRÍCIO SILVEIRA – OPINIÃO: O eterno retorno do fascismo (III)
O pandemicídio diz respeito à manipulação política de um evento pandêmico com o propósito de dar fim a uma população ou parte dela.
O presidente – a julgar pelo que dizem 9 entre 10 especialistas sérios, a julgar pelo que nos informam 8 entre 10 jornalistas comprometidos com a profissão, a julgar pelo que sustenta a maioria dos cientistas políticos mais atentos – nunca se empenhou, de fato, em coordenar ações ou liderar processos técnicos para enfrentar maior crise sanitária da história do país.
FABRICIO SILVEIRA – Opinião: O eterno retorno do fascismo (II)
Ao invés disso, especializou-se em atravessar a pandemia, sobrevivendo políticamente a ela (a despeito das mortes), eximindo-se de responsabilidades executivas concretas, esquivando-se de suspeitas e acusações criminais (muitas delas envolvendo um ou outro dentre seus filhos) e atiçando a guerra ideológica com propósitos unicamente eleitorais.
Esse é o cenário em que nos encontramos. O presidente se movimenta entre negacionistas e milicianos, fanáticos religiosos, cínicos e mentirosos compulsivos, o velho fisiologismo do centrão, imbecis genuínos – a inacreditável claque do puxadinho do Palácio do Planalto –, hordas digitais e contas falsas no Twitter (ou no Facebook).

FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O eterno retorno do fascismo (I)
Há também delirantes ideológicos, tiozões do Whatsapp, oportunistas e moralistas de plantão.
Para eles, as leis não se impõem, as instituições democráticas e a Constituição cidadã precisam derreter. Um grande complô globalista-comunista (!?!) é a causa de todo problema.
Enquanto isso, os brasileiros morrem. É triste. Triste e desolador. O pandemicídio bolsonarista, hoje em curso, é o suicídio do país.

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