JULIO PUJOL
Professor de História e consultor político
Chega a ser enfadonho o nível de debate político e existencial que atingimos no Brasil nos últimos tempos. Claro, as coisas não nascem do nada.
Tem uma construção aí de médio e longo prazo. O que é ‘atual’ foi plantado lá atrás. Tijolo por tijolo.
Penso que talvez o último respiro de uma cultura e de uma identidade originalmente brasileira tenha se dado em 22. Sim, em 1922, na Semana de Arte Moderna, com Mário de Andrade e seus contemporâneos.

Talvez possamos falar também de 30. Sim, 1930, na Revolução liderada por Getúlio que superou a República Velha. Talvez na ‘era Vargas’, com o nacionalismo, a criação da Petrobrás…
Talvez ainda tenhamos tido um sopro com a Bossa Nova e JK. Com a construção de Brasília. Sim, Brasília é um marco da genialidade brasileira.
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Talvez ainda respirássemos com a Tropicália, ou mesmo a Jovem Guarda. Mas parece que tudo foi se perdendo. Anos 70, sim, tempos difíceis.
No pós-guerra (Pós segunda guerra mundial, de 1945 a 1970, mais ou menos) o empastelamento cultural norte-americano invadiu o mundo. E nós brasileiros compramos.

Sim, fomos nós quem compramos; música, eletrodomésticos, cinema, carros, jeans, super-heróis. Lembro de minha primeira infância, lá nos anos 70, nossos heróis e referências não eram brasileiros, nem latinos.
Eram todos americanos. Queríamos a Coca-cola e a Fanta. (claro que adorávamos Cyrilinha, mas ela foi desaparecendo).
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É preciso ressaltar Maurício de Souza, que meio Don Quixote, nos brindava com os gibis da Turma da Mônica.
O bom samba virou pagode. Na adolescência queríamos a discoteca, o jeans, aquele tênis, aquele cabelo… Assistíamos aqueles filmes. E toda a produção cinematográfica brasileira foi se perdendo.
Não vai aqui nenhuma xenofobia, nenhum conservadorismo, nenhuma exaltação ao passado, muito menos uma crítica dos costumes.
Faço apenas uma análise de como fomos abrindo mão de nossa identidade própria, de nossa formação cultural, de nossas referências históricas, culturais, étnicas, e fomos desprezando a nossa imensa riqueza.
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Culturalmente somos uns dos países mais ricos do mundo porque absorvemos (pacífica ou brutalmente) elementos, e seres, os mais diversos como europeus de todo o continente (portugueses, espanhóis, italianos, alemães, poloneses) e africanos de várias nacionalidades, indígenas originais da terra, depois japoneses, árabes e judeus, libaneses, nossos irmãos fronteiriços e tantos, tantos outros povos. E ainda continuamos recebendo imigrantes.
Nossa formação é única. Somos um “povo novo” como dizia Darci Ribeiro. Sim, o brasileiro é um povo novo, como nunca existiu. Esse é um ponto de partida, uma premissa.

Precisamos compreender isso, porque isso é um bem, é o nosso passaporte, a nossa carta perante o mundo; como dizem, é o nosso lugar de fala, a nossa identidade; é o ponto a partir do qual “SOMOS”: ‘O ser é e não pode não ser’.
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Mas, em algum momento, por circunstâncias, quisemos ser outra coisa que não éramos. E esse movimento é cultural.
Fomos desvalorizando nossas coisas, nossas referências, nossos líderes, nossa língua (hoje parece que é mais importante um jovem aprender e saber o inglês do que o português). Queremos nossos filhos na Inglaterra, no Canadá, na Austrália ou nos Estados Unidos.
Sim, somos nós que queremos. Fomos olhando para fora e abrindo mão de nossa responsabilidade pelo nosso país.
Abandonamos nossa matriz clássica, absorvida daquela matriz europeia. Não sabemos, nem estudamos nossa história. Não ouvimos Vila Lobos. Não sabemos a etimologia de nossos nomes.
Abandonamos, no ensino, a filosofia, a sociologia, o latim, o amor a literatura, os valores humanistas. Também ‘compramos’ uma educação pragmática e tecnicista.
Bem, dá para resolver. E disso vou falando adiante nos próximos textos. Vejam bem, isso não é uma conversa passadista, nostálgica, reacionária…
JULIO PUJOL: “No Alvoroço da Festa” – A Irmandade do Rosário
Na realidade é uma conversa futurista. Que indaga sobre qual futuro estamos construindo. Aliás, um poeta futurista russo, há um século dizia: ‘em algum lugar, talvez no Brasil, exista um homem feliz’. E existe sim.
*Sugiro uma visita a uma loja de brinquedos infantis. Vejam a disposição dos brinquedos (de um lado para meninos, do outro para meninas). Vejam quem são os heróis e as heroínas de nossos filhos e filhas. Esse é o futuro que estamos construindo, por hora.

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