KYDO DE SANTA MARIA
Escritor e poeta
Meu amigo, minha amiga
Os dias têm sido dia a dia angustiantes. De hora em hora opressivos e distantes, como se não estivessem mais aqui em volta, mas em uma bifurcação anômala dentro do corpo, entre um sorriso incompleto e descontamentos discretos.
Há uma sensação terrível de que algo se parte. Em um momento parto, no outro volto; não estou mais e volto a estar como um pasmo revolto ao ponto de partida de onde jamais saí, mas com a persistente impressão de não estar mais.
Repasso então através de meus olhos escuros o individual e cotidiano do meu quarto escuro, brilhante de luz, cheio de teias nos cantos onde as pequeninas praticam a liberdade e encontro passados antigos, que não deveriam voltar, perdidos como estampas coladas em cada fio de cada seda jamais tecida.
KYDO: A poesia andarilha de bar em bar
E o que é isso, então? Mensagens incrédulas do passado ou crendices obtusas em que me prendo para não me esquecer. Talvez meu ser esteja migrando para uma nova forma irrepreensível de não ser, de absoluto nonsense ou um primitivo zumbisense?

Quem sou no final das dúvidas? E eu respondo: eu não sei. Mantenho comigo, com paciência cultivada, uma enorme capacidade de ler expressões e tons de voz. Mas tudo que escuto muito pouco me motiva.
Fica-me sempre a impressão de que a cada mentira que escuto eu mesmo minta a mim mesmo para sobreviver com um pouco de lucidez dentro de uma cotidiana mentira coletiva. Dentro de um quarto fechado, alheio à luz, não há pôr-do-sol. Apenas a luminosidade obscura das noites insones.
Venho tentando reconstruir mundos possíveis a partir dos escombros desse nosso próprio mundo que desmorona.
KYDO – Crônica: O Universo é vivo – Cosmologia da Informação
Camobi não voltará no tempo. Itaára não será mais o mesmo. Mas se Camobi e Itaára desaparecerem, o que restará de Santa Maria? A Garganta do Diabo e meia dúzia de quartéis de militares incólumes?
As estátuas de Santa Maria morrerão em conjunto com seus heróis. Os jornais erodidos e falidos desaparecerão da memória de uma cidade desprovida de memória.

A Estação da Viação Férrea perderá seus prostíbulos. Templos de fé falcatrua consumirão as ruas onde antes travava-se a luta pela liberdade de expressão, inclusive a religiosa.
Os Poetas de Santa Maria, os bons Poetas, aqueles que fazem da Vida uma Poesia, falecerão. Manterá Santa Maria a sua capacidade histórica de se renovar sempre?
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Estátua viva
Manterse-á a aparentemente inesgotável fonte de mentes novas da juventude que sempre nos motivou e alimentou a nossa Cultura, mesmo contra toda a incultura e mediocridade dos nossos líderes políticos?

Eu sei que hoje o Valério, um dos melhores e mais sinceros Poetas de Santa Maria, um dos poucos comunistas convictos que conheci até hoje, e que viveu até às últimas consequências a dimensão das suas ideias e valores, vive hoje em situação de rua.
É certo, é um comunista, ele é perigoso, tem mais é que passar fome. E toda uma Santa Maria perdida em si, perdida em mitos passados e Mitos presentes não se pressente assassina de si própria. Assim como a ele Santa Maria destrói a si própria.
CRÔNICAS DE UM CAMINHANTE: A Santa Maria que a gente nem sempre vê
Lembrem-se amigos e amigas, a felicidade urbana não surge do número de ruas, nem do calçamento das ruas e nem do asfalto das ruas.
Meus amigos, a felicidade urbana somente existe no sorriso das pessoas. Sem isso, todos os mundos são destruídos, de todos nós, gradativamente, até mesmo o meu, aqui no meu abrigo, repleto de sonhos e teias de aranha onde sonho inadvertidamente com um tempo solidário.
Kydo, Casinha Amarela, Porto Alegre, julho de 2021.

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