BELINDA PEREIRA
Psicóloga e mestre em gerontologia
São 5 horas da manhã. O relógio desperta. Lili pula da cama e, como de costume, antes de sair para o trabalho cozinha, limpa, organiza, lava, estende, recolhe, passa, guarda e alimenta os bichos de estimação. Engole o café apressada e sai para o trabalho.
Sabe que ao retornar terá que passar no supermercado e que mais tarefas domésticas a estarão esperando. Além de tudo isso; ela cuida de Pedro, de 8 anos, e de Alice, de 14.
A caminho do trabalho Lili pensa: “todos os dias é a mesma maratona, sinto que vou enlouquecer, e pior que ninguém me ajuda, sou eu para tudo”.
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Lili, assim como muitas mulheres, não se dá por conta que o trabalho que realiza em nome da família, do amor e bem-estar de todos, é solitário, sem valor e reconhecimento dos demais.
Tanto faz se trabalham de domingo a domingo, se são as primeiras a acordar e as últimas a irem dormir ou se alimentar.
Por conta dessa desigualdade, muitas mulheres frequentemente são tomadas por sentimentos de injustiça, menos valia, ataques de ansiedade, de raiva, sintomas de depressão e de insatisfação com seus pares e até arrependimento de terem constituído uma família.
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Para completar, muitas, por não compreenderem o que se passa em seu íntimo, ainda sentem culpa por tais sentimentos.
Além de dedicarem mais que o dobro do tempo dos homens em afazeres domésticos, sequer recebem remuneração, muito menos algum benefício trabalhista por todos os cuidados que dedicam à empresa familiar. Pior é que o tempo dedicado a tais afazeres aumenta com a idade.
Infelizmente, nem todas as mudanças ocorridas nos últimos tempos colaboraram para que abandonassem o título de rainhas do lar. Mesmo trabalhando fora, é sempre elas que fazem os trabalhos de casa.
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E muitas, mesmo quando sobrecarregadas, não se sentem à vontade para pedir ajuda, pois alimentam crenças que atravessam gerações: “a gente foi criada assim; as coisas da casa são da mulher; homem não foi feito para essas coisas; eles não sabem fazer direito as lidas da casa”.

Lili até se aventurou certa vez em pedir ajuda e foi isso que teve que ouvir de seu companheiro: “olha Lili, eu trabalho muito, então não me incomoda com esses assuntos, te vira, tu que é a dona da casa”.
Cheia de coragem, ela retrucou: “eu também trabalho, dentro e fora de casa, sabia”? Pronto, deu briga e Lili nunca mais tocou no assunto.
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Assim como Lili e seu marido, muitos casais também se tornam cúmplices de um mesmo crime, a dupla jornada de trabalho que acomete a maioria das mulheres.
Após a janta, enquanto todos estão sentados assistindo TV, Lili lava a louça e sonha com o dia em que, enquanto ela lava, o seu companheiro seca.
Está quase terminado sua empreitada, finalmente vai poder descansar, quando ouve a voz de seu marido que vem do quarto: “Lili, não demora, vem deitar, estou carente de seu amor”.

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