SABRINA SIQUEIRA – Jornalista e podcaster do Literatura Oral
A minha última participação aqui na coluna de opinião do Paralelo 29 foi uma crônica sobre uns perrengues em Roma. Além de dar uma dica de como proceder no transporte público na capital italiana, caso algum leitor ainda não soubesse, a narrativa dessas histórias pessoais teve como objetivo suscitar discussão sobre temas importantes, como machismo com mulheres que viajam sozinhas, preconceito por parte de autoridades com alguns corpos, desconstrução do mito de que fora do Brasil tudo funciona lindamente.
Só que escrevi isso tudo com ironia e com humor.
A ironia depende da compreensão do leitor para se completar. O leitor deve decodificar um subtexto no que está sendo dito, ou que a intenção é falar o contrário do está escrito, ou ainda que o dito está sendo exagerado, como eu fiz, para criar o efeito humoresque.
Ou seja, é um tipo de texto que aposta alto na capacidade de entendimento do leitor, não entrega tudo mastigado. Mas corre o risco de não ser completamente entendido, quando lido literalmente. Naquele dia devo ter escrito de forma confusa, porque houve alguns ruídos no entendimento, que se desdobraram em comentários.
Para começar, estava falando sobre o que aconteceu comigo e pode acontecer com mulheres viajando sozinhas, e recebi comentários de homens surpresos, porque viajaram sozinhos para Roma e não perceberam nada disso!
SABRINA SIQUEIRA: A vida tem que ser mais que pagar boletos
Alguns comentários foram sobre a minha opinião de que um motivo para a rudeza dos romanos comigo, enquanto viajei sozinha, foi porque sou uma mulher fazendo turismo desacompanhada, considerando que parte da Itália ainda tem uma cultura machista, especialmente de Roma para o sul, em direção à Sicília.
Alguns leitores responderam que “quem quer respeito deve respeitar”, numa sugestão de que as coisas que aconteceram foram culpa de determinado comportamento meu. Como não existe nada no texto indicando que agi indevidamente antes dos comportamentos antipáticos de atendentes e autoridades (nem fiz nada desse tipo), só posso concluir que quem mandou esses comentários pode considerar desrespeitoso uma mulher viajar sozinha!
E, se for isso, é uma pena. É uma pena que pessoas achem normal que ao fazer isso ou aquilo, contrariando o que a sociedade machista espera, a mulher irá ser desrespeitada sim, e não tem motivo para se surpreender ou reclamar.
Esse discurso é próximo do “ah, estava de saia curta, pediu para ser estuprada”, “ah, até essas horas na rua, teve culpa no assalto” ou “ah, ela sabe que o marido é nervoso e irrita o pobrezinho, pede para ser espancada. Apanha porque gosta”, falas sempre dirigidas a mulheres.
O pior é que muitas dessas falas partem de mulheres. As próprias mulheres reproduzindo, justificando o machismo. O mundo já é machista demais, pelo menos quem é mulher poderia ser solidária com os relatos das outras.
SABRINA SIQUEIRA: Chatear e punir
Além disso, a máxima de “quem quer respeito, basta agir com respeito” é falha. Infelizmente, não é suficiente ser respeitoso para receber tratamento humano em contrapartida. Basta ser um pouco atento às notícias diárias de pessoas agredidas física ou verbalmente, por preconceitos variados, sem ter feito nada para merecer o desrespeito, a não ser o fato de existirem.
Para determinados corpos, como os de mulheres que não são submissas, de homossexuais, de negros, de pobres, existir parece ser uma afronta suficiente para justificar qualquer violência. Quem insiste nesse tipo de frase pronta, achando que tem a fórmula da vida perfeita, ou é insensível ou está alienado.
Sobre os comentários de discordância quanto à minha opinião de que a multa no ônibus não precisaria ter acontecido, tendo em vista que eu tinha as passagens e era uma turista na cidade, entendi perfeitamente que o motivo do castigo foi não ter perfurado as passagens dentro do ônibus.
A razão de escrever sobre isso, além da dica para os leitores que porventura não soubessem, foi chamar para a discussão da validade de uma punição nesse caso, e que cada leitor estendesse o debate para a necessidade de determinadas ações de autoridades em Roma, em Santa Maria e em qualquer lugar do mundo.
Não consigo pensar em uma função melhor para fiscais de transporte público e para autoridades em geral do que informar, colaborar para o bom funcionamento da cidade de forma amigável.
Que pena que alguns prefiram estar em uma posição de idolatria tamanha diante da autoridade, que considerem a penalização boa e correta, sem nem questionar.
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Quem faz isso esquece que pode ser o próximo punido ou se ilude de estar a salvo? E quem está seguro onde as regras são castigar os menos informados, se quem castiga e quem faz as regras são os mesmos, e nós não pertencemos ao grupo deles? Os delatores, os fãs de autoridades punitivas estão seguros, desde que demonstrem abertamente concordância com o sistema?
O fiscal pode ser o próximo punido também, em um dia sem uniforme, em uma cidade ou país diferente. Viver em suspenso, esperando que a qualquer momento alguma atitude fora das regras resulte numa punição deve ser o normal? Essa organização social incentiva que vivam espreitando para informar, delatar, para colher felicidade na delação do deslize alheio, para aplaudir a punição.
Em algum momento, nos comentários, surgiu o argumento de que se eu não sabia da necessidade de perfurar a passagem, é porque “não estudei as regras do local para onde fui e, sendo assim, não deveria viajar novamente para lugar nenhum”.
Me perdoem a próclise indevida e me digam que vem vindo um meteoro arrasar a Terra, porque parece que a humanidade falhou! – mas olha lá eu já sendo irônica outra vez! Quero a Terra esférica viva, pessoal, não levem meus exageros ao pé da letra!
É uma lástima que a reverência de algumas pessoas à autoridade as impeçam de perceber o mundo criticamente. É totalmente possível discordar de um procedimento executado por alguém de uniforme. Eu discordo do fato de turistas serem multados em transporte público, estando com a passagem, sim!
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Quem estiver lendo pode estar de acordo ou desacordo, mas não pode exigir que eu aplauda o que considero ruim, só porque também acontece na Alemanha ou onde quer que seja. Espero que as regras mudem para melhor em todos os cantos onde injustiças e abusos de autoridade acontecem.
Não estou sugerindo insubordinação contra autoridades, mas incentivando uma visada crítica sobre toda e qualquer atitude e discurso. A obediência acrítica pode até proteger um corpo momentaneamente, mas não traz nenhum benefício para o coletivo. Essa obediência subserviente, que não pondera se as coisas poderiam ser diferentes, é exatamente o que uma engrenagem social pensada para excluir quer das massas, porque é alienação e passividade.

Castelo Sant’Angelo. As experiências positivas dos leitores em Roma não anulam nem tornam mentirosos os relatos da crônica anterior. Nem mesmo as minhas próprias experiências positivas lá desqualificam o que poderia ter sido diferente/Foto: Arquivo Pessoal
Se vocês estão programados a pagar multas sem refletir a justificativa do castigo e a necessidade desse tipo de penalidade, então eles venceram e o sinal está fechado para nós, que somos pensantes. Eu consigo questionar o comportamento do garçom que me considerou inadequada para estar no restaurante, talvez por estar desacompanhada de um homem, ou talvez por outro motivo qualquer.
E consigo pensar em outras possibilidades para que não haja fraude no transporte público, em Roma. Porque não faz nenhum sentido que turistas, que estão na cidade apenas por alguns dias, pagaram por transporte aéreo, hotel, entradas, restaurantes, compras, precisem burlar a fiscalização, estando com as passagens de € 1,50 pagas e em mãos.
Isso é subestimar pessoas que se deslocaram até um lugar a passeio. É esperar sempre o pior. É conveniente para não precisar propor uma solução melhor, mais justa, menos punitiva. É acreditar que pessoas só agem adequadamente quando sob ameaça de castigo. É um eterno vigiar e punir. As estruturas sociais não devem ser congeladas para a posteridade, mas avaliadas à luz da sensatez de gerações que se sucedem no curso ininterrupto da História.
SABRINA: A educação em Charles Dickens, por Roberta Santurio
Quando Marx e Engels escreveram, no Manifesto Comunista de 1848, que “tudo que é sólido se desmancha no ar”, eles estavam fazendo referência a mudanças em estruturas sociais e econômicas.
Mas eles também escreveram sobre a necessidade de ação das massas, porque só participando dessas mudanças inevitáveis elas se aproximarão de uma vida menos injusta.
Será que se o título da minha crônica fosse “Não vá a Cabul”, a capital do Afeganistão, asiática, pobre, de cultura riquíssima e também machista, teria tido uma repercussão ruim? Ou as pessoas se mobilizam por algumas cidades europeias (que não precisam dessa mobilização. Cabul é que precisa!) na tentativa vã de sentirem-se pertencentes a um lugar pomposo? Eu sei que, em Santa Maria, muitos são portadores de passaporte italiano. Mas, acreditem, lá vocês ainda são considerados brasileiros terceiro-mundistas.
SABRINA SIQUEIRA: Dois Brasis de Caminha
Sou observadora. Em todas as cidades que visitei e morei, no Brasil e na Europa, verifiquei situações de machismo, preconceito, e também demonstrações de virtude e humanidade. Não somente comigo. Só que, para escrever crônicas, acho muito mais interessante usar os perrengues, porque dá para extrair humor.
Vincular humor e assunto sério é o que me interessa nas construções desses textos (e também foi temática de uma pesquisa acadêmica minha). Não é para me fazer de vítima, como alguém apontou, até porque ter viajado e vivido essas experiências é um privilégio.
Como observou o brasileiríssimo Ariano Suassuna, “já reparou que tudo que é ruim de passar é bom de contar?!”. É dele também a frase: “a humanidade se divide em dois grupos: os que concordam comigo e os equivocados”.
Viva o humor!

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