ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA – ESCRITOR
A última lembrança que tenho de uma viagem de trem foi em 1988. O comboio de vagões partiu cedo de Santa Maria, rumamos para a fronteira e desembarquei em Cacequi. Era uma manhã ensolarada.
Guardei bem este dia na memória porque no almoço, no restaurante, a televisão noticiava o assassinato de José Antônio Daudt. É aquela história, né: onde você estava quando aconteceu tal coisa?
Eu estava almoçando em Cacequi. Algumas situações do nosso cotidiano são bem associadas com uma tragédia ou acontecimento.
A minha memória ferroviária dá um salto e avança até fevereiro de 1996, quando aconteceu a derradeira viagem de Santa Maria a Porto Alegre. Naquele dia eu não estava na cidade, e se estivesse teria embarcado na última viagem. A estação estava repleta de saudosos e indignados.
Então, quando ouvi a notícia sobre o Trem da Quarta Colônia, não tive dúvidas, faria o passeio turístico para rememorar antigas lembranças. Reavivar a veia ferroviária adormecida e reverenciar a memória dos ferrinhos – símbolo de luta e trabalho no século XX – e de uma época de sonhos e desenganos.
Para quem é filho e neto de ferroviário, o passeio é extremamente emotivo. A saudade bate forte para quem, quando criança, viajava de Santiago até Ramiz Galvão para gozar as férias de verão e virada do ano na casa dos avós. O sacolejar dos vagões é o mesmo de outras Eras.
O aceno na estação também é de alegria e adeus. Há sempre uma despedida e um lenço branco quando o chefe da estação bate o sino e autoriza a partida do trem.
Partimos de Santa Maria às 14:30h rumo a Restinga Seca. Uma paradinha em Arroio do Só para o lanche e mais reminiscências e saudade na plataforma com o trem parado na estação. Claro, comprei uma cuia e uma miniatura da locomotiva.
Anoitecia quando chegamos em Restinga Seca – uma bonita, iluminada e preservada estação – e finalizamos a viagem com o coração agradecido pelas saudades que matamos um pouquinho.
Aliás, neste embate ela saiu, apenas, ferida. A gente não consegue vencer a saudade, pois ela sempre ressuscita em nós. Naquela noite sonhei com o tlec-tlec dos vagões e o apito da máquina diesel.