Nota divulgada pela comunidade Kaingang Ven Ga de Boca do Monte diz que incêndio foi criminoso; ocorrência foi registrada
PARALELO 29

Indivíduos desconhecidos invadiram e colocaram fogo em uma área ocupada por indígenas caigangues (ou kainganges), na antiga Fundação Estadual de Pesquisas Agropecuárias (Fepagro), no Distrito de Boca do Monte, em Santa Maria, na noite desse domingo (27).
Conforme nota divulgada pela comunidade indígena e repassada por seu advogado, Gabriel de Oliveira Soares, ao Paralelo 29, o incêndio foi criminoso. O fogo começou por volta das 23h30min, quando desconhecidos teriam invadido a aldeia e ateado fogo no carro do cacique e em sofá que estava na área externa do galpão ocupado atualmente pelos moradores.
De acordo com a nota, o Corpo de Bombeiros e a Brigada Militar foram acionados imediamente, contudo o policialmento chegou ao local depois de três horas.
Ninguém ficou ferido, mas o carro que era utilizado pelos indígenas como meio de deslocamento para a compra de alimentos e realização de consultas médicas foi bastante danificado.
Boletim de ocorrência registrado
Um boletim de ocorrência foi registrado. Os representantes da comunidade também farão uma comunicação ao Ministério Público Federal (MPF) e nos autos da Ação Civil Pública movida pelo MPF para que o Estado do Rio Grande do Sul garanta os direitos tradicionais indígenas.
“Em que pese não seja surpreendente, sendo prática de violência racista que se repete constantemente contra os povos indígenas, a situação apenas aumenta o temor da comunidade, que vive sob constantes ameaças à sua integridade, tanto em redes sociais como durante a sua rotina diária, mesmo prezando pela convivência pacífica desde o primeiro dia que chegou ao local”, diz a nota divulgada.
Por fim, a comunidade e seus apoiadores “repudiam o ato criminoso de violência realizado e cobram das autoridades que os fatos sejam devidamente apurados e os responsáveis identificados e responsabilizados”.
Tensão desde o primeiro momento
A área da Fepagro foi ocupada por um grupo de indígenas da etnia caigangue (ou kaingang) ven ga na manhã de 15 de julho. Cerca de 30 pessoas, entre crianças, adultos e idosos oriundos de diversas cidades gaúchas vivem no local. Eles argumentam que vieram de áreas afetadas pela enchente e que buscam um lugar digno para aprodução de seus artesanatos e para viver.
A ocupação recebeu o apoio de uma série de entidades de Santa Maria. No entanto, há setores que questionam a presença dos indígenas, sobretudo por conta de uma escola municipal infantil existente no local. A Prefeitura chegou a retirar as crianças da escola por conta da ocupação.
Mais de uma audiência já foi realizada na Justiça Federal de Santa Maria em busca de uma conciliação. O processo segue tramitando ainda sem uma decisão. Os indígenas reivindicam a área, alegando que pertenceu a seus antepassados.
A Câmara de Vereadores tem posições distintas em relação à presença dos indígenas. O vereador do PL Tubias Calil tem feito discursos contrários desde o início da ocupação. Já a vereadora do PSOL Alice Carvalho defende a permanência dos indígenas.
NOTA DIVULGADA PELA COMUNIDADE INDÍGENA
“Na noite de ontem a comunidade da Aldeia Indígena Kaingang Ven Ga na Boca do Monte enfrentou situação de medo, violência e terror.
Por volta das 23h30 indivíduos desconhecidos invadiram a Aldeia e atearam fogo no carro do Cacique, bem como em um sofá localizado na área externa do galpão ocupado atualmente ocupado pelos moradores.
O Corpo de Bombeiros e a Brigada Militar foram acionados imediatamente, mas o policiamento apenas chegou ao local após cerca de 3h de espera.
Nenhum dos indígenas foi ferido, porém o carro, utilizado pela comunidade como meio de deslocamento para compra de alimentos e realização de consultas médicas, foi altamente danificado.
Em que pese não seja surpreendente, sendo prática de violência racista que se repete constantemente contra os povos indígenas, a situação apenas aumenta o temor da comunidade, que vive sob constantes ameaças à sua integridade, tanto em redes sociais como durante a sua rotina diária, mesmo prezando pela convivência pacífica desde o primeiro dia que chegou ao local.
Foi realizado boletim de ocorrência, bem como será realizada comunicação ao Ministério Público Federal e nos autos da Ação Civil Pública movida pelo MPF em face do Estado do Rio Grande do Sul, para o fim de salvaguardar os direitos tradicionais indígenas da Aldeia Kaingang Ven Ga.
A comunidade e os seus apoiadores repudiam o ato criminoso de violência realizado, e cobram das autoridades que os fatos sejam devidamente apurados e os responsáveis identificados e responsabilizados.“

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