JOSÉ RENATO FERRAZ DA SILVEIRA – PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA UFSM
Hoje falo de barbárie. Hoje falo do assassinato cruel do cachorro Orelha. Ao pensar na maldade que lhe foi infligida, minha memória é atravessada por outra história — a de Lady, que hoje dorme segura aqui em casa. Lady foi resgatada de uma casa abandonada em Santa Maria.
Conheceu o abandono, o medo e a incerteza. Hoje, em Sorocaba, é amada, bem cuidada, bem alimentada. Vive o que todo animal deveria viver: proteção.
“O HOMEM FAZ DA TERRA O INFERNO DOS ANIMAIS”
É impossível não lembrar, nesse contraste brutal, das palavras de Arthur Schopenhauer: “A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.”
Ou ainda, de forma ainda mais dura e verdadeira: “O homem fez da Terra o inferno dos animais.” Schopenhauer compreendia algo que ainda nos falta como sociedade: os animais não são objetos, não são coisas à disposição do arbítrio humano.
São seres sencientes, capazes de sentir dor, medo, afeto e abandono. O respeito a eles não é um detalhe moral — é um critério essencial de humanidade.
“FRATURA ÉTICA PROFUNDA”
Pensar em Lady e lembrar de Orelha dói porque expõe uma fratura ética profunda. Enquanto alguns animais encontram cuidado, abrigo e amor, outros são lançados à crueldade mais covarde, sem qualquer possibilidade de defesa ou compreensão do ódio que recebem.
A história de Orelha não é um episódio isolado. É o retrato de uma sociedade que ainda falha em reconhecer a dignidade da vida que não fala, mas sente. Lady, hoje segura e amada, carrega em silêncio as marcas de um passado que nenhum carinho apaga por completo.
Ela é prova viva de que os animais têm memória, têm afeto e têm medo — e de que a violência deixa cicatrizes profundas, mesmo quando o resgate chega.
“ONDE HÁ CRUELDADE, HÁ FALÊNCIA MORAL”
Amar um animal é, portanto, um ato ético. É escolher não reproduzir a brutalidade. É afirmar que a força deve servir para proteger, nunca para ferir.
Por isso, lembrar de Orelha não é apenas um exercício de indignação. É um chamado à responsabilidade.
O modo como tratamos os animais revela quem somos — como indivíduos e como sociedade. Onde há crueldade, há falência moral. Onde há compaixão, ainda existe esperança.

