JOSÉ RENATO FERRAZ DA SILVEIRA – PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS E ANALISTA DE POLÍTICA INTERNACIONAL – UFSM
A contradição entre uma prosperidade aparentemente efetiva e uma realidade cada vez mais “gelatinosa” — fluida, instável, difícil de apreender — produz enganos profundos.
Há uma sensação difusa, quase angustiante, de que “a história está de volta, mas não necessariamente do nosso lado”.
Trata-se de uma percepção poderosa: a de que forças estruturais, antes latentes, retornam com intensidade, mas escapam ao nosso controle ou às nossas expectativas. Esse sentimento se conecta diretamente ao ambiente político contemporâneo, especialmente no caso brasileiro.
O mundo em termos binários
A crescente polarização não é apenas um fenômeno conjuntural; ela se alimenta de uma simplificação deliberada do mundo.
Na disputa pelo poder, atores políticos e seus respectivos “especialistas” tendem a reduzir a complexidade da realidade a uma dicotomia funcional: “nós” contra “eles”. Essa operação não é trivial — ela organiza percepções, mobiliza afetos e facilita a construção de identidades políticas.
O problema é que essa simplificação encontra ressonância em uma disposição mais ampla. Para o cidadão médio, compreender o mundo em termos binários é cognitivamente mais confortável.
Dois polos, duas narrativas, dois campos morais
Dois polos, duas narrativas, dois campos morais. A ambiguidade desaparece, a dúvida se dissolve, e a realidade, ainda que distorcida, torna-se inteligível. É uma economia cognitiva que tem alto rendimento político. No entanto, essa lógica não é nova.
Há quem sustente que o próprio modo de produção capitalista carrega, em sua essência, um antagonismo estrutural — a tensão permanente entre forças que não se reconciliam plenamente. Capital e trabalho, acumulação e desigualdade, expansão e crise.
Nesse sentido, a polarização não seria um desvio, mas uma manifestação recorrente de dinâmicas mais profundas que atravessam as sociedades modernas.
Desafio contemporâneo
Assim, talvez o equívoco maior esteja em tratar a polarização como uma anomalia recente, quando, na verdade, ela é um traço constitutivo da vida social e política. O que muda são suas formas, seus discursos e seus instrumentos.
E é justamente aí que reside o desafio contemporâneo: resistir à sedução das explicações fáceis sem perder a capacidade de compreensão.
Porque, no fim, quando o mundo é reduzido a dois lados estanques, não apenas empobrecemos a análise — empobrecemos também a própria possibilidade de ação política lúcida.
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