A Covid-19 fez 75 vítimas fatais em Santa Maria desde 14 de maio, quando a primeira morte foi registrada. Desde sexta-feira (2), a cidade está na bandeira vermelha, de acordo com o mapa de Distanciamento Controlado do governo do Estado. Para além dos números, a pandemia tem rostos de pessoas anônimas e conhecidas. São famílias que perderam seus familiares queridos, amigos que perderam a parceria do churrasco, do futebol e mesmo das lutas cotidianas. Desde sua primeira edição, no sábado retrasado, 27 de setembro, o Paralelo 29 vem contando histórias de santa-marienses que se curaram e que perderam a vida para o novo coronavírus. Conheça, abaixo, três histórias de santa-marienses que morreram na última semana, cujas despedidas causaram grande repercussão.
Ferroviário não conseguiu conhecer o neto
O ferroviário aposentado Antonio Altair de Souza, 65 anos, não teve tempo de pegar no colo o neto Benjamin, de 5 meses, que mora em Bento Gonçalves com a mãe, Mirela, e a irmã, Ester, de 3 anos. O novo coronavírus não só adiou a visita à filha e aos netos, como, também, impediu esse encontro para sempre. Xitãozinho, como era conhecido, morreu em 29 de setembro, dia em que Santa Maria registrou o recorde de 6 óbitos por Covid-19 em um único dia. Ele é uma das 75 vítimas fatais da pandemia na cidade.
Maquinista da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) por três décadas, o ferroviário ganhou o apelido do cantor sertanejo da dupla com Xororó por ter cortado o cabelo no mesmo estilo do cantor. Na época, ele tinha uma empresa que promovia shows musicais. A esposa, Sandra Dias, 52 anos, conta que os dois se conheceram num desses eventos.
“Éramos da música quando nos conhecemos, ele empresariava e eu cantava. Ele ganhou o apelido de Xitãozinho Gaúcho por ter o corte de cabelo idêntico, mas era escrito com X. Estávamos juntos há 29 anos”, conta Sandra, lamentando o fato de o aposentado não ter conseguido conhecer pessoalmente o mais novo membro da família.
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Conhecido no futebol amador por ter treinado times locais, como o Aliado, e por sua militância política (foi do PT e do PSB), o gremista Xitãozinho deixou quatro e dois netos de duas uniões. Sua morte comoveu amigos e familiares, que postaram dezenas de mensagens de despedida nas redes sociais.
Uma dessas postagens comoventes foi escrita pela filha do casal, a professora Paola, 24 anos. “Aahh meu véio. Por que fazer isso com a gente? Tu partiu cedo demais. Tu me prometeu que me levaria ao altar. A dor da tua partida tá dura”, diz o início do texto em que Paola homenageia o pai com ilustração da foto da viagem em que ele a levou para fazer concurso para o magistério em Santa Cruz do Sul.
“A dor é grande, e pensar que essa doença o transformou em uma estatística horrível. Ele sempre foi uma pessoa que cativava por onde passava”, lamenta Paola, a quem o ferroviário chamava carinhosamente de “professorinha”.
Técnica de enfermagem na UTI para Covid no Hospital Regional, a esposa Sandra e três filhos de Xitãozinho também contraíram o vírus. Além do pai, apenas um dos filhos teve reação mais forte. Sandra, que já voltou a trabalhar, diz não saber onde e como o marido se contaminou.
“A gente não sabe. No hospital (Regional) há todo o cuidado com os profissionais. E ele estava sempre se cuidando, em casa”, diz.
O ex-maquinista começou a sentir sintomas em 12 de setembro, quando consultou e fez exames. E de 12 para 13 foi internado no Hospital Regional. O último contato com a família ocorreu no dia 15, por celular, quando ele falou com a esposa e todos os filhos. No dia seguinte, Xitãozinho foi entubado. Ele morreu na manhã de 29 de setembro.
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A escolinha de futebol ficou órfã
Há mais de três décadas, o funcionário público municipal Agostinho Pereira, 67 anos, dedicava sua vida à escolinha de futebol Borges de Medeiros, pela qual passaram gerações de garotos, entre eles o meio-campo Rangel, que jogou no Riograndense. Aposentado da prefeitura, continuou a apostar na garotada e formou grande parte dos jogadores de futebol amador de Santa Maria.

Ex-atacante do Kennedy, clube de futebol amador da zona Norte, Agostinho foi campeão citadino em 1976 pela agremiação. Em 2005, comemorou o bicampeonato com o filho Cesar, hoje com 39 anos. Ex-atacante do Riograndense e do Inter-SM, Cesar começou a treinar com o pai aos 7 anos de idade.
“Ele tirava as crianças da rua e as encaminhava para um caminho melhor. Ele tinha caráter, humildade, era querido por todos. O trabalho vai continuar, mas igual ao que ele fazia não existe”, diz a nora Savana, 36 anos, esposa de César.
Líder comunitário da Zona Norte, Agostinho estava aposentado e, em 2019, foi homenageado na Câmara de Vereadores por seu trabalho social de meio século, que inclui os mais de 30 anos da escolinha. Além de ensinar futebol para a gurizada, o funcionário publico promovia eventos e campanhas comunitárias.
“O pai também fazia festa e sopão para famílias carentes. Todo mundo ficou abalado com a morte dele, foi muito rápido. Ele se cuidou muito, mas muito mesmo, tanto que o futebol parou com a pandemia. A gente não sabe como ele pegou o vírus”, diz a filha Daniele Martins Pereira, 33 anos.
Ela conta que o pai começou a sentir os primeiros sintomas da Covid no final de agosto, consultou na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e foi internado no Hospital Regional em 6 de setembro. Ele faleceu na última quarta-feira, 30 de setembro.
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A notícia gerou consternação no futebol amador e no meio político, já que Agostinho era militante histórico do PT. Dezenas de pessoas postaram homenagens ao líder comunitário no Facebook, entre elas o deputado federal Paulo Pimenta e o vereador Daniel Diniz, amigo do aposentado há 23 anos. “Hoje perdi um grande amigo para essa doença maldita que alguns teimam em negar. Funcionário aposentado da prefeitura, apaixonado pelo futebol amador de Santa Maria, foi meu parceiro incansável em inúmeras jornadas”, escreveu Pimenta.
A nora Savana lembra que a primeira esposa de Agostinho, Maria de Fátima Pereira, conhecida como Negra, com quem ele teve os 7 filhos, foi o braço direito nos projetos sociais. Negra acompanhava o marido nos deslocamentos quando os meninos da escolinha entravam em campo. Agostinho ficou viúvo em 2014 e atualmente tinha outra companheira, Vera. Além dos filhos, o idoso deixou 22 netos e 4 bisnetos.
O servidor que ajudou a combater a pandemia
Aos 49 anos de idade, o servidor público municipal Heverton Pedrozo Prates, conhecido na cidade como Mano, também não resistiu à Covid-19. Ele morreu no sábado em decorrência da doença e sua morte teve grande repercussão pelo fato dele ter sido um dos combatentes da linha de frente da prefeitura para conter a pandemia e por ser bastante conhecido. Segundo o prefeito Jorge Pozzobom (PSDB), Mano Prates foi responsável pela aquisição de todos os equipamentos de proteção individual (EPIs) da prefeitura.

Funcionário do quadro efetivo do município há 23 anos, Mano atuava diretamente com o secretário de Saúde, Guilherme Ribas. Ele era superintendente administrativo e financeiro da pasta, responsável pela parte dos recursos. Quando ele foi internado no Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo, Pozzobom chegou a pedir orações pela recuperação do servidor, de quem era amigo há mais de 30 anos. Mano era casado com Karin Duarte e não tinha filhos.
Um dos que lamentaram a morte de Mano foi o jornalista Ramiro Guimarães, ex-superintendente de Comunicação da prefeitura. “A Covid-19 levou o nosso amigo Mano. E sabem qual é a maior ironia nisso tudo? Ele era um servidor da Secretaria de Saúde. Trabalhava direta e diariamente para ajudar a salvar vidas. Minha última conversa com ele foi, justamente, sobre a destinação de EPIs para o pessoal que atende na academia do CDM. Pedi, expliquei a urgência. Ele prontamente atendeu e resolveu. Dias depois, foi hospitalizado”, escreveu o jornalista em postagem no Facebook.

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