Fabrício Silveira*
Perguntam-me o que achei do livro Tolos, Fraudes e Militantes. Pensadores da nova esquerda (Record, 2018), escrito pelo filósofo inglês Roger Scruton (1944-2020). Antes de responder, hesito. Tenho receio de dizer que gostei e ser enquadrado como um neoconservador, reacionário ou neoliberal ferrenho. Não me agradaria ser associado de modo simplista aos ideais políticos defendidos pelo autor.
O fato, contudo, é que gostei. Trata-se, efetivamente, de um bom livro: bem escrito, fluente e espirituoso. Do ponto de vista teórico, é denso, minucioso e agudo. Faz análises extensas e chega a ser até bastante ponderado. Não há razão para negar.
Algumas coisas, no entanto, me chamaram a atenção: em primeiro lugar, o título escolhido não corresponde à posição assumida, em muitos momentos, no curso do texto. Embora se esforce para criticar aqueles que define como os pilares intelectuais do pensamento de esquerda – Lacan, Deleuze e Guattari, Edward Said, Alain Badiou e Slavoj Zizek, Habermas e Jacques Derrida –, Scruton jamais é tão taxativo e tão duro quanto o título do livro sugere.
Ao contrário, ele reconhece, em muitas ocasiões, o quanto tais autores – aos quais dedica capítulos inteiros, apreço e atenção concentrada – são influentes, produtivos e ricos, seja em virtude das fontes filosóficas que manejam, seja em virtude da complexidade (e/ou da abrangência) do sistema de pensamento que montaram. Sendo assim, identificá-los como “tolos, fraudes e militantes” é um exagero grosseiro, um gesto impreciso, que parece sobredeterminado pela ânsia publicitária e pelo fácil apelo editorial às rotulações e às polêmicas curtas.
Dito isso, vale reconhecer também que, apesar das análises minuciosas que faz, apesar do rigor expositivo – de certa forma, o livro possui um tom didático –, trata-se, em suma, de um texto de provocação. É uma peça de embate. Scruton, antes de tudo, é um polemista público.
Seu principal objetivo não é o de respeitar os autores sobre os quais escolhe falar. Mais do que respeitá-los e entendê-los – naquilo que eles se propõem, aceitando-se, portanto, os pressupostos dos quais partem, assumindo o ponto de vista que defendem –, Scruton quer polemizar com eles, opor-se diametralmente a eles.
Quer interpretá-los em chave irônica, recusando-os em bloco, sem jamais abandonar o posto ideológico que ocupa. É como se estivesse, de antemão, decidido a discordar – e nada irá demovê-lo dessa intenção.
O que temos, ao final, não é um exame analítico – muito embora encontre momentos de aprofundamento e ponderação. É uma contenda ideológica, de oposições que voltam a ser simplistas e arbitrárias, num debate crítico que parece não se consumar, pois os pólos em questão permanecem intocados, no mesmo lugar em que estavam.
Aos pensadores da nova esquerda, e ao modo como eles retratam e explicam o mundo contemporâneo, Scruton surge como um arcaísta, opondo-lhes um ideal de vida comunitária, no resguardo das tradições culturais, sob os auspícios de uma moralidade religiosa e de uma noção ainda rústica e romantizada de liberdade.
*Fabrício Silveira é professor universitário, pós-doutorando em Comunicação pela UFRGS.

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