LUDWIG LARRÉ
Jornalista
Vanderlei Costa Bonacho, o “Teteza” mereceria um necrológio com a inspiração e a riqueza descritiva de um Jorge Amado.
Não é difícil imaginá-lo como um dos personagens da malandragem soteropolitana de “Tenda dos Milagres”.
Tivesse vivido naquela época pelas ladeiras de Salvador, Teteza ganharia alguns parágrafos entre os tipos folclóricos da malandragem baiana.
Teria, com certeza, vivido aventuras mundanas ao lado de Pedro Archanjo, Lídio Corró, Rosa de Oxalá, Major Damião de Souza, Magé Bassã e Budião.
O nosso Teteza, meu colega municipário, servidor da Câmara de Vereadores, entretanto, construiu sua história de personalidade popular, querida e pitoresca pelas ladeiras de Santa Maria.
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Lembro dele, desde sempre, ali pelo café da “Boca Maldita”, no centro da cidade. Sempre – ou quase sempre – na beca.
Pisante branco, pulseiras e correntões, bom relógio, capanga embaixo do braço e o sorriso franco, de farta alegria e parcos dentes.
Antes da era do e-mail, como bem lembrou o Zé Mauro aqui no Paralelo 29, Teteza cumpria quase que diariamente o périplo pelas redações jornalísticas da cidade.
Às vezes em carro oficial, com motorista; outras, suado e revoltado “na infantaria”, “no dois”, era ele quem entregava a versão física do release do legislativo.
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Chegava com aquele calhamaço de cópias reprográficas dos originais datilografados. A chegada do Teteza definia a pausa do cafezinho e da galhofagem.
Teteza chamava branco de branco e preto de preto. Eu era dos muitos que respondia a saudação, tratando-o por “Branco”.
“Tá na hora do Branco chegar. Vamos tomar um cafezinho e dar umas risadas”, decretava o querido e saudoso fotógrafo Alemão Adalto Schuster. Teteza e Schuster juntos eram certeza de stand up comedy improvisado.
Teteza era saudavelmente vaidoso, e além dos recursos próprios ganhava muitos presentes.
– Bah! Quanto tu pagou nessa jaqueta, Branco?
– Nada! Presente do doutor fulano.
Ou do vereador cicrano. Teteza prestava serviços, favores e gentilezas para proeminentes autoridades da República de Santa Maria.
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Era Faz-Tudo na Câmara de Vereadores. Pintor de paredes caprichoso e ciumento de seus afazeres. Ao secar a última demão, assinava a obra: TETEZA. Em caixa alta.
Quem se der ao trabalho de pesquisar, há de encontrar a assinatura do artista em algum canto de parede da Prefeitura ou da Câmara.
Pedi ao Fabricio Minussi que me levantasse informações sobre as preferências carnavalescas do Teteza, mas o colega jornalista estava – assim como eu – sobrecarregado com o fechamento das notícias da sexta-feira.

Na incerteza, não posso cometer imprecisões ao associá-lo à Unidos do Itaimbé, à Vila Brasil ou à Barão do Itararé, afinal, o Branco era lá do Sopé do Morro, do Pra Lá dos Trilhos.
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O Minussi – que arranca informação de pedra – não teve tempo para essa apuração. Nosso deadline era apertado, mas o colega nos brinda com umas palavras sobre o Teza.
“O cara tinha estilo. Gabava-se toda a vez que comprava um tênis novo. Vivia com um radinho de pilha e uma capanga de baixo do braço esquerdo. Quando uns estavam chegando com a demanda, ele já estava voltando com o serviço”, acrescenta o meu querido amigo e grande repórter “Gordo Cheiroso”.
Presença confirmada no carnaval, no futebol amador da cidade e nos “Fura Bucho” da baixa Avenida Rio Branco, Teteza era balaqueiro. Isso ele era!
Antes de entrar em campo era aquele ritual de afumentação. Com a bola rolando, a balaca era maior ainda.
Chegou a jogar profissionalmente no São Borja. Foi contemporâneo do ex-zagueiro Cassiá Carpes, que depois fez carreira no Grêmio e na política porto-alegrense.
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– Se não fosse aquele branco filho da puta… me caguetou pro treinador – confidenciou-me certa vez o “Teza”.
– Mas o que tu aprontou, Branco? – indaguei.
– Nada! Só porque eu morava na zona e vivia na cachaça – derramava-se o Teteza naquela gargalhada gostosa.
Vi o Teteza triste uma vez, aos prantos, quando roubaram a Bebê, sua ovelha de estimação, criada no quintal de casa, lá no Itararé.
Talvez até fosse parar na assadeira por vontade do dono. Nesse caso, teria sido um ritual sem a crueldade do roubo e do sacrifício profano pelas mãos de um estranho.
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Vi o Teteza brabo uma vez. Furioso, na verdade, por um destrato desses tão comuns com barnabés da nossa laia na hierarquia do serviço público.
O Branco topava qualquer brincadeira, mas mexeram com sua dignidade. Passei trabalho para acalmá-lo.
A alegria da torcida era quando o Teteza entrava na Baixada Melancólica ou nos Eucaliptos para um jogo do Coloradinho ou do Gandense.
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Confiante e estratégico, esperava a arquibancada encher, para só então desfilar junto ao alambrado, naquela marra que lhe era peculiar, em busca de um lugar para assistir a partida.
E não dava outra. Era ovacionado pelo estádio inteiro. A galera ia à loucura aos gritos de “Te-te-za! Te-te-za! Te-te-za!”.
Hein, Branco? Não era assim? Hein? Hein?
Que Oxalá te receba e conduza, meu querido amigo Teteza! Chega lá no sapatinho, mas desfila na tua marra característica.
Aí no outro plano não há de faltar alguém para puxar o coro “Te-te-za! Te-te-za! Te-te-za!”.

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